O anúncio da captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, pelas Forças Armadas dos Estados Unidos, no sábado, 3 de janeiro de 2026, trouxe à tona outra figura central do regime: sua esposa, Cilia Flores. Conforme informações da emissora americana CNN, ambos, Maduro e Flores, de 69 anos, foram retirados à força do quarto onde estavam por militares americanos durante a madrugada.
Nahum Fernández, líder do partido governista venezuelano, confirmou à agência Associated Press que o casal estava na residência dentro do complexo militar do Forte Tiuana. Eles foram levados para Nova York, onde enfrentarão acusações formais de conspiração e narcotráfico.
Quem é Cilia Flores, a "primeira-combatente"?
Muito mais do que uma primeira-dama tradicional, Cilia Flores é considerada uma peça poderosa dentro do chavismo. Em 2013, o próprio Maduro a batizou de "primeira-combatente", rejeitando o termo "primeira-dama", que considerava um conceito das elites. "Ela não será a primeira-dama porque esse é um conceito reservado aos ricos", declarou na época, enfatizando que sua esposa não ocuparia um papel secundário.
Nascida em 1956, na cidade de Tinaquillo, estado de Cojedes, ela era a caçula de seis irmãos. Sua família se mudou para Caracas quando ela era criança. Aos 32 anos, formou-se em Direito pela Universidade Santa María, especializando-se posteriormente em direito penal e trabalhista.
O ponto de virada em sua vida ocorreu após a tentativa de golpe de Estado liderada por Hugo Chávez em 1992. Cilia integrou a equipe jurídica que defendeu os militares envolvidos, aproximando-se do projeto político chavista. Foi nesse período que conheceu Nicolás Maduro, que atuava como segurança de Chávez.
Uma carreira política paralela e ascendente
A trajetória política de Cilia Flores cresceu junto com o chavismo. Em 1993, fundou o Círculo Bolivariano de Direitos Humanos. Com a vitória eleitoral de Chávez em 1998, ela também ascendeu. Foi eleita deputada em 2000 e, após um segundo mandato, tornou-se a primeira mulher a presidir a Assembleia Nacional da Venezuela em 2006, cargo que ocupou por seis anos.
Seu comando no legislativo, no entanto, foi marcado por controvérsias, incluindo a proibição do acesso da imprensa ao plenário e acusações de nepotismo. No início de 2012, Chávez a nomeou Procuradora-Geral da República, posição que manteve até março de 2013, ano da morte do líder.
Em julho de 2013, três meses após a eleição de Maduro, o casal se formalizou, tornando Cilia oficialmente primeira-dama. Eles criaram juntos os filhos de relacionamentos anteriores: três dela e um dele. Mesmo como primeira-dama, manteve atividade política, sendo reeleita deputada em 2015 e ingressando depois na polêmica Assembleia Nacional Constituinte, criada por Maduro em 2017.
Acusações, sanções e o caso dos sobrinhos
A imagem pública de Cilia Flores e sua família ficou manchada por graves acusações. Em 2018, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos impôs sanções contra ela pessoalmente, visando o círculo íntimo de Maduro.
Mas o caso mais emblemático envolve seus sobrinhos. Em novembro de 2015, Efraín Antonio Campo Flores e Franqui Francisco Flores de Freitas foram indiciados por um promotor de Nova York por tráfico de drogas. Presos no Haiti e entregues à DEA, foram condenados em dezembro de 2017 a 18 anos de prisão. A acusação alegava que usaram o hangar presidencial do aeroporto de Maiquetía, em Caracas, para enviar 800 quilos de cocaína para os EUA, via Honduras.
Em outubro de 2022, ambos foram libertados após um perdão presidencial de Joe Biden, como parte de um acordo que incluiu a libertação de sete americanos presos na Venezuela. No entanto, com a volta de Donald Trump à Presidência dos EUA, a situação se complicou novamente. Em dezembro de 2025, Trump impôs novas sanções a esses dois sobrinhos e a Carlos Erik Malpica Flores, outro sobrinho que ocupou cargos importantes no governo Maduro.
Agora, a detenção conjunta com Maduro coloca Cilia Flores no centro de um dos capítulos mais dramáticos das relações entre Venezuela e Estados Unidos, fechando um ciclo de anos sob a mira da justiça americana.