O ataque militar em larga escala realizado pelos Estados Unidos contra a Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, gerou um impacto imediato e sensível na cidade fronteiriça de Pacaraima, em Roraima. No domingo (4), um dia após as explosões em Caracas e nos estados de Miranda, Aragua e La Guaira, comerciantes locais relataram uma queda acentuada no movimento e um clima de apreensão no comércio, que depende diretamente do fluxo de venezuelanos.
Calmaria tensa na principal porta de entrada
Pacaraima é a principal porta de entrada de migrantes venezuelanos no Brasil desde 2015, e grande parte de sua economia gira em torno dos cidadãos que cruzam a fronteira para compras e serviços. Apesar de a rotina na cidade ter sido descrita como "calma" neste domingo, a circulação de clientes e pessoas diminuiu significativamente. Os lojistas atribuem a retração diretamente às tensões políticas do sábado (3), quando ocorreu o ataque.
A fronteira entre Brasil e Venezuela chegou a ser fechada após a incursão militar, sendo reaberta ainda na tarde de sábado. Mesmo assim, o temor persistiu. A comerciante brasileira Kayandrea da Silva, de 33 anos, resumiu o sentimento: "Hoje está tranquilo até demais. Para um domingo, está tudo muito calmo. Ontem foi muita tensão... agora estamos com o movimento bem abaixo". Ela, no entanto, acredita que o episódio não deve gerar violência local, mas sim um "ajuste na presidência da Venezuela" em Caracas.
Dependência do cliente venezuelano e receio de cruzar a fronteira
A venezuelana Judith Moreno, de 51 anos e há quatro no Brasil, foi direta ao apontar a consequência mais imediata: o movimento está muito baixo, quase zero. Ela explica que a queda está ligada à dificuldade de transporte e, principalmente, ao receio da população venezuelana em atravessar a fronteira em meio à instabilidade política. "A gente depende muito das pessoas que vêm de fora para comprar aqui", afirmou, referindo-se aos moradores de cidades venezuelanas como Santa Elena.
A gerente de supermercado Carol Vieira, de 29 anos, confirmou a retração nas vendas desde sábado. "Mesmo depois que [a fronteira] abriu, as pessoas ficam com medo de vir", disse. Ela destacou a dependência crítica do comércio local dos clientes vindos da Venezuela: "Para bater meta fica complicado, porque a maioria dos nossos clientes são os vizinhos de Santa Elena. Aqui os moradores são poucos, a gente depende muito deles". Apesar da preocupação com despesas fixas, Carol mantém a expectativa de que o fluxo se normalize nos próximos dias.
Perspectivas de quem vive na fronteira
Enquanto o comércio sente o baque, alguns moradores tentam manter a normalidade. É o caso do vendedor Marcel Oliveira, de 22 anos, natural de Santa Elena e vivendo no Brasil há dois anos. Ele acompanhou as notícias, mas afirma que vivenciou o domingo com tranquilidade junto à sua família. "Para mim estava normal. Vi as notícias, mas fiquei tranquilo, não foi um dia de agonia", contou.
Questionado sobre o futuro, Marcel demonstrou não pretender deixar o Brasil, mesmo desejando mudanças positivas para seu país de origem. "Eu espero que todo mundo possa voltar para casa, mas eu fico no Brasil, independente. Para a Venezuela, a esperança é que tudo mude", declarou.
O ataque que abalou a Venezuela
O evento que desencadeou os efeitos em Pacaraima foi um ataque militar de grande escala dos Estados Unidos. Na madrugada de sábado, uma série de pelo menos sete explosões atingiu Caracas em um intervalo de 30 minutos, conforme relatado pela Associated Press. Moradores da capital venezuelana gravaram colunas de fumaça saindo de instalações militares e relataram tremores, barulho de aeronaves voando baixo e correria nas ruas. Parte da cidade ficou sem energia elétrica.
Em resposta, o governo venezuelano emitiu um comunicado declarando o país sob "agressão militar" e decretou estado de emergência, convocando todas as forças sociais e políticas para planos de mobilização. A captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa pela administração Trump marcou um ponto crítico na longa crise política e econômica que já levou milhares de venezuelanos a buscarem refúgio no Brasil através de cidades como Pacaraima.