A recente intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, ordenada pelo presidente Donald Trump, vai muito além de um simples ataque. Segundo análise do professor de direito e relações internacionais Kleber Galerani, a ação serve como um sinal geopolítico de alto calibre direcionado à China, em um claro recado para que Pequim se afaste do que Washington considera sua esfera de influência natural.
O 'sono' estratégico dos EUA e a ascensão chinesa
Em entrevista ao Conexão Record News na segunda-feira, 12 de janeiro de 2026, Galerani explicou que, por décadas, os Estados Unidos foram o principal parceiro comercial do Brasil e da região. No entanto, essa hegemonia foi perdida nas últimas décadas. A China assumiu esse posto, não apenas com o Brasil, mas em toda a América Latina, avançando sua influência em uma área estrategicamente vital.
"O que nós observamos é uma tentativa de retomada, de uma ascendência sobre uma área que estrategicamente sempre foi uma área de influência natural por parte dos Estados Unidos da América, desde lá, em 1823, quando a Doutrina Monroe foi estabelecida", afirmou o professor. Ele avalia que os EUA 'dormiram no ponto' enquanto a China consolidava sua presença econômica e política no continente.
Venezuela: o microcosmo da rivalidade global
A situação na Venezuela é vista por especialistas como um microcosmo da rivalidade mais ampla entre Washington e Pequim. A intervenção norte-americana teria, entre seus múltiplos objetivos, o de criar um aviso explícito para a China sobre seus interesses na América. Fontes do governo Trump confirmaram à agência Reuters que a operação visava, entre outras coisas, dizer a Pequim para ficar longe das Américas.
Galerani destaca a dualidade da mensagem enviada pelos Estados Unidos. "Por um lado, os Estados Unidos buscam limitar a influência chinesa próximo de suas fronteiras e, por outro, afirmam que estão abertos aos negócios, inclusive oferecendo exportação de petróleo venezuelano diretamente aos chineses sob seus termos", analisou.
Uma disputa que vai além da força militar
O episódio revela que a competição pela influência na América Latina é travada em múltiplas frentes. Não se restringe ao poderio militar, mas envolve uma complexa teia de relações econômicas, acordos comerciais e projeção de poder político. A oferta de exportar petróleo venezuelano para a China, mas sob condições ditadas por Washington, ilustra essa tentativa de redefinir as regras do jogo na região.
O movimento dos EUA representa uma tentativa clara de retomar a ascendência perdida e reafirmar a Doutrina Monroe em um século XXI marcado pela multipolaridade. A resposta da China e os desdobramentos dessa disputa na América Latina serão pontos-chave a serem observados nos próximos capítulos desta rivalidade geopolítica.