Venezuela: Por que Delcy Rodríguez, e não María Corina, é chave nos diálogos?
Análise: o pragmatismo do poder na transição venezuelana

Uma explicação direta, porém frequentemente evitada, define o cenário político na Venezuela: o poder real permanece nas mãos do chavismo militarizado, e não da oposição civil. Em transições complexas, marcadas por deterioração institucional e risco de desintegração estatal, as negociações ocorrem com quem pode controlar ou causar o caos, não necessariamente com quem possui legitimidade ética ou apoio popular nas urnas. Este é o pragmatismo implacável da política concreta.

A lógica por trás da participação de Delcy Rodríguez

A presença de Delcy Rodríguez nos diálogos não se deve a afinidade ideológica, concessão moral ou validação política. Sua participação é uma questão de conveniência estratégica. Ela atua como uma conexão vital para a manutenção operacional do aparato estatal venezuelano, que inclui órgãos governamentais, a petrolífera PDVSA, o setor financeiro e redes de distribuição.

Sem essa estrutura administrativa mínima, o país rapidamente entraria em colapso, agravando a crise humanitária. Além disso, Rodríguez mantém comunicação direta com o núcleo do regime — incluindo militares, serviços de inteligência e grupos armados paralelos — funcionando como uma articuladora capaz de transmitir instruções e facilitar acordos. Em processos de transição, essa capacidade de gerar resultados tangíveis frequentemente supera a retórica correta ou as posturas eticamente irrepreensíveis.

María Corina Machado e a fase da legitimação

A comparação com a líder oposicionista María Corina Machado é inevitável e necessária. Machado possui legitimidade política, respaldo popular e um compromisso democrático inquestionável. No entanto, ela não controla armamentos, territórios ou infraestrutura crítica, nem pode garantir que um período pós-ruptura seria pacífico. Em momentos de alto confronto, esses elementos costumam ser mais determinantes do que votos ou princípios.

Para o núcleo chavista, María Corina representa uma ameaça existencial. Sua inclusão imediata nos diálogos provavelmente inviabilizaria qualquer conversa inicial, pois destruiria a confiança mínima necessária para conter o conflito. Isso não é uma desvalorização de sua liderança, mas um reconhecimento de que sua hora pode ser a próxima fase, não a atual.

As três etapas inevitáveis da transição

A história mostra que transições políticas raramente seguem o caminho idealizado. Elas geralmente progridem em três estágios bem definidos. A primeira fase é o controle do caos, quando se dialoga com aqueles que detêm os meios de coerção. A segunda é a reorganização do poder, com a incorporação gradual de civis e especialistas. Só então vem a fase de legitimação, com eleições e lideranças eleitas pelo voto.

Tentar alterar essa sequência costuma levar ao fracasso do processo. O equívoco emocional comum é acreditar que, uma vez enfraquecido um regime autoritário, o poder automaticamente se transfere para "os justos". A realidade é mais dura: primeiro governam os que impedem a desintegração, depois os que administram o Estado, e só então os que representam politicamente a sociedade.

Nesse contexto, Edmundo González Urrutia ocupa uma posição intermediária. Ele é um símbolo eleitoral e uma personalidade de consenso, mas não um operador do poder efetivo. Sua adequação é maior para a fase posterior, quando a prioridade passa de apagar o incêndio para reconstruir o Estado.

O cenário provável para a Venezuela é simples e severo: hoje se dialoga com Delcy Rodríguez, amanhã com os civis, depois com a nação. A história raramente começa onde gostaríamos, mas cobra um preço alto de quem se recusa a entender como o poder realmente funciona. A exclusão permanente de María Corina Machado do horizonte político seria um sinal claro de que a transição falhou. Por enquanto, porém, sua hora ainda não chegou.