Flávio Bolsonaro como candidato em 2026 fragmenta alianças da direita e impulsiona Ratinho Jr.
Candidatura de Flávio Bolsonaro fragmenta alianças da direita

A indicação do ex-presidente Jair Bolsonaro de que seu representante na disputa pela Presidência da República em 2026 será seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), provocou um terremoto nos planos de aliança que vinham sendo costurados entre os principais governadores de direita do país. O movimento embaralhou as cartas e aponta para um cenário de fragmentação, e não de unificação, da oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já no primeiro turno.

O grupo de governadores e a busca por unidade

Até o anúncio da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, no início de dezembro, os governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Romeu Zema (Novo-MG), Ratinho Jr. (PSD-PR) e Ronaldo Caiado (União Brasil-GO) haviam consolidado um grupo coeso. Eles mantinham contato frequente e compartilhavam posições comuns em temas como segurança pública e anistia aos acusados de atos golpistas de 8 de janeiro. Episódios como a invasão da Venezuela pela Guiana, mediada pelos Estados Unidos, também foram marcados por um discurso unificado do grupo.

Nesse contexto, as especulações sobre uma aliança eleitoral partiam da premissa de que Tarcísio de Freitas seria o candidato principal e prioritário, tanto pela sua ligação com Bolsonaro quanto por governar o estado de maior peso eleitoral do país, São Paulo. Romeu Zema, por exemplo, já havia declarado publicamente que considerava Tarcísio o nome mais forte da direita e que poderia abrir mão de uma candidatura própria em nome do objetivo maior de derrotar o PT.

O novo tabuleiro com Flávio Bolsonaro

A entrada de Flávio Bolsonaro na corrida presidencial mudou completamente a dinâmica. Tarcísio já sinalizou que não será candidato e pretende apoiar o filho do ex-presidente, focando na sua reeleição ao governo de São Paulo. Com a saída de cena do governador paulista como postulante ao Planalto, o nome de Ratinho Jr. voltou a ganhar força como uma alternativa ao senador bolsonarista.

Enquanto isso, Zema e Caiado reafirmam suas intenções de disputar a Presidência. O governador de Minas Gerais, que lançou sua pré-candidatura pelo Novo em agosto, admitiu na ocasião que poderia compor com outros partidos se Bolsonaro pedisse. No entanto, em outubro, Zema descartou a possibilidade de ser vice-presidente em qualquer chapa, afirmando que manterá sua candidatura independentemente do aval do ex-presidente.

A formação de uma chapa com Flávio Bolsonaro e Zema é considerada difícil, dada a falta de convivência entre os dois e a resistência de parte do Novo em se aliar ao bolsonarismo já no primeiro turno. O governador mineiro é agora visto como um vice que poderia agregar valor às campanhas de Ratinho ou do próprio Flávio, mas sua disposição para tal é questionável.

O papel do PSD e a candidatura de Ratinho

O enfraquecimento da candidatura de Tarcísio e a decisão de Flávio impulsionaram de fato a de Ratinho Jr. O nome do governador do Paraná é mencionado como a opção de partidos de direita e centro-direita que resistem a apoiar o herdeiro político de Bolsonaro. O presidente do PSD, Gilberto Kassab, que também é secretário no governo Tarcísio, já declarou que não lançaria uma candidatura presidencial pelo partido caso o governador de São Paulo fosse o candidato – um compromisso que não se estende a Flávio Bolsonaro.

Em dezembro, Kassab indicou que não deve haver uma aliança do PSD com o senador. "O PSD tem como uma decisão apoiar o Tarcísio caso ele seja candidato. E, se ele não for candidato, nós temos dois pré-candidatos dentro do partido", disse, referindo-se a Ratinho Jr. e ao governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. Num cenário com Flávio na disputa, a possibilidade de união eleitoral dos governadores se resumiria basicamente a uma chapa Ratinho-Zema, cogitada por aliados mesmo com a insistência do mineiro em ser candidato.

Caiado na corrida e o apoio do centrão

Ronaldo Caiado é visto como um candidato que corre por fora. Dificilmente o governador de Goiás retiraria sua candidatura em prol de outro nome, mas é provável que apoie qualquer candidatura de oposição no segundo turno. Quando Flávio entrou na pré-campanha, Caiado afirmou ser direito de Bolsonaro tentar viabilizar o filho, mas reforçou sua própria decisão de concorrer. Em dezembro, inclusive, recebeu o senador para tratar da eleição, com foco especial na disputa estadual em Goiás.

Caiado, no entanto, tem questões partidárias a resolver. A federação União Brasil-PP ainda não decidiu endossar oficialmente sua candidatura e tinha preferência inicial pelo nome de Tarcísio. Na última semana, contudo, o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), afirmou que descartava a candidatura do governador de São Paulo e que apostava em Flávio Bolsonaro, sinalizando uma possível guinada do centrão em direção ao senador.

O cenário que se desenha, portanto, é de uma direita dividida. A tentativa de unificação em torno de um nome único, que parecia possível com Tarcísio no centro, deu lugar a um campo com múltiplos pré-candidatos: Flávio Bolsonaro, Romeu Zema, Ratinho Jr. e Ronaldo Caiado. A capacidade de criar uma frente ampla contra Lula no primeiro turno ficou significativamente mais complexa, e as negociações para formar chapas nacionais prometem ser longas e acirradas.