Veto de Lula à dosimetria do 8 de Janeiro: Congresso prepara derrubada e cenário eleitoral se desenha
Veto de Lula à dosimetria será derrubado pelo Congresso

Mesmo durante o recesso parlamentar, o clima em Brasília já é de campanha eleitoral para 2026. O veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao projeto de lei da dosimetria das penas relacionadas aos atos do 8 de Janeiro, aprovado com apoio de parte da própria base governista, se transformou no epicentro de uma reorganização de forças políticas. O ato presidencial, visto como simbólico, deve ser derrubado pelo Congresso Nacional quando os trabalhos legislativos forem retomados, em fevereiro, servindo de termômetro para as alianças do próximo ciclo.

Um veto com destino traçado: a encenação política

O relator do projeto na Câmara, deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), confirmou que já há articulação para derrubar o veto. A análise nos corredores do poder é unânime: a medida de Lula cumpre um papel retórico de defesa da democracia, mas não tem força política para se sustentar. O projeto foi aprovado em 2024 com amplo apoio, inclusive de líderes da situação, o que inviabiliza qualquer esforço do Palácio do Planalto para mantê-lo.

“O veto faz parte de uma encenação. Lula veta sabendo que não tem força política para manter esse veto”, analisa o colunista Robson Bonin, em declaração ao programa Ponto de Vista. O desfecho, portanto, parece previsível: o Congresso retoma as atividades, rejeita o veto presidencial e segue para outras pautas consideradas prioritárias, como a segurança pública.

Hugo Motta e o jogo eleitoral: acenos regionais e distanciamento do PT

Enquanto a oposição mobiliza discursos contra o veto, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), adota uma postura cautelosa. Em recente entrevista na Paraíba, Motta afirmou ter recebido a decisão de Lula “com tranquilidade”, lembrando que a data para apreciação caberá ao presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre.

No entanto, suas declarações foram além do tema específico e revelaram o tom do ano que começa. Questionado sobre um eventual apoio à reeleição de Lula, o deputado deixou claro que qualquer aliança nacional passa, necessariamente, por acordos regionais — em especial em seu estado, a Paraíba. O discurso reforça a lógica que dominará 2026: os palanques estaduais como moeda de troca para negociações em nível federal.

Apesar de gestos recentes de reaproximação entre Lula e Hugo Motta, incluindo liberação de obras e investimentos para a Paraíba, não há perspectiva de uma aliança estrutural entre Republicanos e PT. “O que existe é um momento menos conflituoso, não um pacto político”, ressalta Bonin. Prova disso é a agenda sinalizada por Motta para o retorno do Congresso, que tem como prioridade a PEC da segurança pública — tema do qual o governo Lula vem se distanciando.

O pano de fundo: Tarcísio, Centrão e a complexa equação de 2026

A situação ganha camadas adicionais com o peso de figuras como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, principal estrela nacional do Republicanos e nome cada vez mais cotado para a corrida presidencial. Na Paraíba, o alinhamento de Hugo Motta com o PP, partido comandado por Ciro Nogueira, aliado do bolsonarismo, aponta para um afastamento estrutural do PT no plano nacional.

“O Republicanos não vai se unir ao PT. Isso não passa pela cabeça do Hugo Motta”, afirma o colunista. A expectativa entre as lideranças é de um início de ano “amistoso” entre Executivo e Legislativo, mas sem fidelidade eleitoral. Partidos formalmente aliados do governo podem abrigar, nos estados, campanhas veladas para outros candidatos, um padrão comum em eleições anteriores.

No fim das contas, a disputa em torno do veto à dosimetria vai muito além da definição de penas. Para Lula, o gesto cumpre um papel simbólico. Para o Congresso, a derrubada reafirma sua autonomia. E para a oposição, o tema serve como combustível político. O ano de 2026, embora oficialmente só comece após o carnaval, já está em pleno curso na capital federal, e a batalha atual é pelo controle do ritmo e da narrativa que moldará o próximo ciclo político do país.