Casa Civil de MT contrata empresa de limpeza para fornecer café premium até 2027
MT contrata empresa de limpeza para fornecer café premium

Casa Civil de Mato Grosso fecha contrato milionário para café premium com empresa de produtos de limpeza

A Casa Civil do estado de Mato Grosso formalizou, em 12 de novembro, um contrato para aquisição de café classificado como tipo superior com uma empresa cuja atividade principal registrada na Receita Federal é a distribuição de produtos de limpeza, higiene e material de escritório. O acordo, que permanece válido até novembro de 2027, tem valor total de R$ 239 mil e envolveu a criação de uma comissão especial de servidores para degustar e avaliar as amostras do produto.

Empresa vencedora tem registro atípico para o setor alimentício

A empresa Mathic Distribuidora, vencedora da licitação, está cadastrada na Receita Federal com a atividade principal de comércio varejista de produtos saneantes domissanitários, ou seja, focada em itens de limpeza. Embora a Receita Federal afirme que empresas podem ofertar diferentes atividades desde que devidamente registradas, a torrefação de café aparece apenas como uma entre várias outras na lista da Mathic.

Em contraste, outras secretarias estaduais, como a Secretaria de Meio Ambiente (Sema), a Secretaria de Educação (Seduc) e o Departamento de Trânsito (Detran), firmaram contratos similares com uma empresa que tem como atividade principal a torrefação e moagem de café, alinhada ao objeto da compra.

A reportagem do g1 tentou contato com a Mathic Distribuidora por telefone celular durante três semanas e também por e-mail, mas não obteve resposta. A Casa Civil foi procurada em novembro e novamente em 29 de dezembro, por meio da assessoria geral do governo, sem retorno até o momento.

Comissão de degustação e critérios rigorosos para avaliação do café

Conforme publicado no Diário Oficial, uma comissão composta por três servidores foi instituída para inspecionar e degustar o café, seguindo a Portaria nº 120 de 2024. Os critérios de avaliação incluem:

  • Inspeção física e olfativa: verificação da integridade da embalagem, peso, torra e ausência de impurezas.
  • Análise sensorial (degustação): avaliação do sabor, aroma, textura/corpo e ausência de sabores fora do padrão.

A pontuação é distribuída em:

  1. Aparência e uniformidade (0 a 20 pontos).
  2. Aroma (0 a 20 pontos).
  3. Sabor/paladar (0 a 30 pontos).
  4. Textura/corpo (0 a 15 pontos).
  5. Conformidade com o edital (0 a 15 pontos).

Especialistas criticam falta de sensibilidade política e inversão de prioridades

Para a professora de Ciência Política da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Alair Silveira, a escolha de uma empresa sem referência ao setor alimentício em seu nome é estranha. Ela questiona: O que justifica esta cisão entre o direito ao café de qualidade superior a alguns (dentro do estado) e qualquer qualidade àqueles que sustentam o estado?

A cientista política Christiany Fonseca, doutora em sociologia pela UFSCAR, argumenta que a criação da comissão para avaliar um café premium reflete uma inversão na agenda de prioridades do governo. Isso, do ponto de vista político, é ruim. Porque em um estado como o nosso, com desigualdade social bastante acentuada, criar essa comissão reforça uma imagem de um governo distante da realidade, afirmou.

Ela destacou ainda que, embora o processo esteja dentro da lei, há uma falta de sensibilidade política cabal, comunicando um conforto interno que recebe mais atenção do que as demandas do cidadão comum.

Dilemas na gestão pública e questionamentos sobre especialização dos servidores

O professor e cientista político Vinicius de Carvalho aponta um dilema na gestão pública: Eles querem uma marca diferenciada, porque no pregão é pelo menor preço. O que fica estranho é essa comissão que instituíram.

Carmen Machado, presidente da Federação Sindical dos Servidores Públicos do Estado de Mato Grosso (FESSP-MT), expressou surpresa ao saber da comissão. Nunca soube que nós, servidores públicos, tínhamos essas especialidades em avaliação de café. Para cumprir os critérios previstos, precisaríamos de barista, sommelier de café, engenheiro agrônomo, entre outros, esclareceu.

Christiany Fonseca ressaltou ainda que o caso gera indignação ao contrastar com demandas urgentes da população, como melhores condições de salários e trabalho. Vemos o governo gastando tempo e energia para escolher um tipo de café para seus gabinetes, concluiu, enfatizando a desconexão com a realidade social do estado.