Enamed expõe crise na formação médica do Rio de Janeiro
A primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) trouxe resultados alarmantes para o estado do Rio de Janeiro. Quase metade das faculdades de medicina em funcionamento no território fluminense apresentou desempenho considerado insatisfatório, acendendo um alerta vermelho sobre a qualidade da formação dos novos médicos.
Números preocupantes no recorte estadual
No panorama nacional, 30% dos 351 cursos avaliados estão na faixa insatisfatória. Porém, no Rio de Janeiro, esse índice salta para impressionantes 45%. Isso significa que, das 22 instituições de ensino médico do estado, 10 receberam os conceitos mais baixos (1 ou 2) em uma escala que vai até 5. Todas as faculdades com desempenho ruim são da rede privada.
O estado apresentou o pior resultado da Região Sudeste, com destaque negativo para a Estácio de Angra dos Reis, que obteve conceito 1. Nessa instituição, apenas 21,3% dos alunos alcançaram o nível de proficiência, que exige acerto de mais de 50% da prova.
Instituições com conceito 2 no Rio de Janeiro
- Unig Nova Iguaçu
- Unid Itaperuna
- Unigranrio Rio de Janeiro
- Unigranrio Caxias
- Unifeso (Teresópolis)
- Unifoa (Volta Redonda)
- Atya Itaperuna
- Unifamesc (Bom Jesus do Itabapoana)
Por outro lado, cinco instituições alcançaram a nota máxima no estado (conceito 4):
- Faculdade Souza Marques
- Uerj
- UFF
- UFRJ Rio de Janeiro
- UFRJ Macaé Rural
A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) se destacou com 89% de seus alunos no nível de proficiência.
"Tragédia anunciada", alerta Cremerj
O presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio, Antônio Braga, classificou o cenário como "uma tragédia anunciada que nasce da abertura indiscriminada de novas escolas médicas". Ele argumenta que essa expansão desordenada tem colocado no mercado profissionais com qualificações inferiores, sem cenário de prática adequado e sem professores capacitados.
"Muitos desses alunos chegam ao mercado de trabalho sem as competências mínimas para atender bem a população, o que representa um grande risco à saúde pública", afirmou Braga.
Risco de sanções do Ministério da Educação
As notas 1 e 2 colocam as faculdades sob risco de sofrer sanções do Ministério da Educação (MEC). Entre as possíveis medidas estão:
- Proibição de abertura de novas matrículas
- Redução obrigatória do número de vagas
- Processos administrativos para correção de problemas pedagógicos e estruturais
O presidente do Sindicato dos Professores da Rede Particular do Rio, Elson Paiva, avalia que "quem acaba sendo enganado é o próprio aluno". Ele destaca a necessidade de investimento em qualificação, condições de trabalho e salários dos professores para garantir uma formação adequada.
Erros em questões básicas preocupam especialistas
Um relatório do Inep, órgão responsável pela aplicação do exame, detalha o desempenho dos estudantes em questões consideradas fundamentais para a prática médica. Em um caso emblemático, metade dos estudantes errou ao recomendar exames como ressonância magnética para um paciente com dor lombar crônica sem sinais de alarme.
A conduta correta seria explicar a natureza benigna do quadro, prescrever analgésico e indicar atividade física leve. Em outra questão classificada como fácil, sobre diagnóstico de dengue com sinais de alarme, apenas 34% dos alunos acertaram.
Debate sobre exame obrigatório para registro
Enquanto o MEC analisa as providências após os resultados do Enamed, um projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional propõe a criação de um exame obrigatório para obtenção do registro profissional, similar ao Exame da OAB para advogados.
"O Brasil é um dos países com maior número de escolas médicas no mundo. Com essa quantidade, é essencial que seja aprovado um exame para garantir que só médicos capacitados cheguem à população", defendeu o presidente do Cremerj.
Posicionamento das instituições de ensino
A Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) emitiu nota contestando algumas interpretações dos resultados. A entidade argumenta que o Enamed não avalia aptidão profissional e não substitui os mecanismos legais para exercício da medicina.
A ABMES também destacou que parte dos estudantes estava no 11º semestre durante a prova, com cerca de seis meses de formação prática pela frente. A associação apontou "inconsistências, ausência de critérios previamente definidos e falta de diálogo com a comunidade acadêmica" na primeira edição do exame.
A Estácio de Angra dos Reis, por sua vez, afirmou que o Enamed isoladamente não reflete a qualidade do ensino oferecido, destacando que seu curso recebeu nota 4 em avaliação das instalações pelo MEC.