Região de Campinas registra mais de mil afastamentos de professores por problemas de saúde em 2025
As cidades da região de Campinas, no interior de São Paulo, contabilizaram um total de 1.019 afastamentos de professores por questões de saúde no ano de 2025. Os dados, obtidos pela EPTV através da Lei de Acesso à Informação (LAI), foram fornecidos pela Secretaria de Estado da Educação e abrangem tanto problemas de saúde física quanto mental.
A maioria dos profissionais afastados é composta por mulheres, atuantes na educação básica, com idades concentradas na faixa dos 40 aos 49 anos. Este levantamento evidencia uma preocupante realidade no cenário educacional paulista, exigindo atenção imediata das autoridades.
Detalhamento dos afastamentos por categoria e contrato
Do total de afastamentos registrados, 945 professores receberam licença temporária para tratamento de saúde, enquanto 74 foram afastados por tempo indeterminado. A distribuição por nível de atuação mostra que:
- 775 atuavam como professor da educação básica II
- 142 na educação básica I
- 102 eram do ensino fundamental e médio
Em relação ao tipo de contrato, os números revelam uma predominância de profissionais efetivos:
- 701 eram efetivos (categoria A)
- 244 eram estáveis (categoria F)
- 74 eram temporários (categoria O)
Distribuição geográfica dos casos nas cidades da região
Campinas lidera o ranking com 430 afastamentos, seguida por Sumaré com 99, Indaiatuba com 79, Americana com 70 e Hortolândia com 48 casos. Outras cidades da região também apresentaram números significativos, como Mogi Guaçu (35), Mogi Mirim (30), Louveira (29), Amparo (24), Artur Nogueira (22) e Socorro (22).
Completam a lista Valinhos (21), Serra Negra (18), Espírito Santo do Pinhal (14), Monte Mor (11), Itapira (10), Vinhedo (10), Pedreira (9), Paulínia (8), Holambra (6), Jaguariúna (6), Santo Antônio do Jardim (5), Santo Antônio do Pinhal (5), Águas de Lindoia (4), Lindoia (2), Estiva Gerbi (1) e Pedra Bela (1).
Especialista alerta para necessidade de políticas públicas específicas
Para o professor Ronaldo Alexandrino, especialista em psicologia e educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os dados expõem a urgência de um olhar mais atento do Poder Público às demandas dos docentes. "Falar de adoecimento é, também, corresponsabilizar as políticas públicas e, por sua vez, o estado, que desempenha seu trabalho através das secretarias estaduais e municipais de educação no modo como trata o docente, no modo como organiza a vida funcional desses profissionais", afirma o especialista.
Alexandrino ressalta que, diante de evidências concretas sobre o adoecimento docente, é fundamental encarar o problema e buscar soluções através do diálogo. "A gente precisa olhar para aquela pessoa que está em sofrimento e perguntar para ela o que ocasiona esse sofrimento", completa.
Depoimento revela realidade difícil nas escolas
Uma professora com mais de 20 anos de atuação na rede estadual, que preferiu não se identificar, concedeu um depoimento emocionante à reportagem. Afastada por transtorno misto de ansiedade e depressão, ela descreve um ambiente de trabalho marcado por conflitos e falta de empatia.
"Alunos contra professores, professores contra professores e professores contra gestores. Se você não se adequar àquilo, àquele perfil que a gestão daquela escola deseja, você está fora. E eu não estou falando de competência. Eu estou falando de afinidade", relata a docente.
Ela ainda revelou que o gestor da escola onde trabalhava demonstrava pouca compreensão com questões de saúde mental: "[Ele dizia] 'não chore'. Fui advertida duas vezes por chorar. Muitas vezes eu me escondi em algum lugarzinho para chorar". A professora defende uma abordagem mais humana: "Precisa ter um olhar diferente pro ser humano. Não é nem para os professores, porque os professores são seres humanos. Eles sofrem, adoecem, em busca de uma coisa melhor para os alunos".
Posicionamento da Secretaria de Estado da Educação
Em nota oficial, a Secretaria de Estado da Educação informou que monitora os afastamentos para planejar e aprimorar ações de prevenção e cuidado, com foco especial na saúde mental dos professores. A pasta destacou a existência de um serviço de teleatendimento criado em 2024, que já registrou mais de 875 mil atendimentos em psicologia e 52 mil em psiquiatria até janeiro deste ano.
A Secretaria atribui o número expressivo de afastamentos às transformações enfrentadas pela categoria durante a pandemia, à incorporação de novas tecnologias e às crescentes demandas sociais e pedagógicas. O órgão se comprometeu a fortalecer políticas de acolhimento, escuta e prevenção para melhorar as condições de trabalho dos educadores.