Perfil do investidor: entenda os tipos conservador, moderado e agressivo
Quem inicia no mundo dos investimentos rapidamente encontra termos como conservador, moderado e agressivo. Esses rótulos estão presentes em aplicativos bancários, relatórios de corretoras e recomendações financeiras, mas muitas vezes seu significado e propósito não são claros para os novatos.
Origem regulatória dos perfis de investidor
Essas classificações foram adotadas pelas instituições financeiras em resposta a uma exigência da CVM (Comissão de Valores Mobiliários). A regra determina que bancos, corretoras e outros intermediários só podem recomendar produtos adequados ao chamado perfil do investidor. Consequentemente, surgiram os testes de perfil que os clientes precisam responder ao começar a investir.
A Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) estabelece que as instituições adotem ao menos três categorias: conservador, moderado e agressivo, seguindo parâmetros definidos em seu código de distribuição.
Segundo o planejador financeiro Carlos Castro, da Planejar, os perfis de investidor nascem da regulação. Como cada produto financeiro tem características distintas – como risco, volatilidade e prazos – e nem todos os investidores estão preparados para lidar com essas variações, a regra busca oferecer uma camada mínima de proteção.
Como funciona a avaliação do perfil
A avaliação é realizada por meio de um questionário que coleta informações sobre:
- Prazo pretendido para o investimento
- Tolerância a risco
- Objetivos declarados
- Situação financeira, incluindo receitas e patrimônio
- Conhecimento ou experiência do cliente com produtos do mercado
O assessor de investimentos Michael Viriato, colunista da Folha, ressalta que os perfis também funcionam como uma proteção jurídica para bancos e corretoras, que podem usá-los para se resguardar caso um cliente questione perdas posteriormente.
Tipos de investidor: conservador, moderado e agressivo
Os perfis são definidos da seguinte forma:
- Conservador: investidor com baixa tolerância a risco, que prioriza liquidez e segurança.
- Moderado: aceita oscilações médias e busca preservar o capital no longo prazo.
- Agressivo: demonstra maior tolerância a risco, disposto a enfrentar perdas potenciais em busca de retornos superiores.
Pelas regras da Anbima, se o cliente declarar aversão a risco e necessidade de liquidez, ele deve ser enquadrado no perfil mais conservador, independentemente das demais respostas. Com base nessa classificação, a CVM determina que intermediários não podem recomendar produtos incompatíveis com o perfil do cliente.
No entanto, isso não proíbe o investidor de assumir riscos maiores. Caso deseje realizar uma operação fora do seu perfil, ele pode fazê-lo, desde que a instituição o alerte formalmente e o cliente assine uma declaração de ciência dos riscos envolvidos.
Limitações e dinâmica dos perfis de investidor
Especialistas apontam que a divisão rígida em três perfis é limitada e não reflete a dinâmica da vida financeira real. Carlos Castro argumenta que o investidor não é conservador, moderado ou agressivo, mas está em um desses estados, dependendo do contexto.
Além disso, disposição para assumir risco não é o mesmo que capacidade. Uma pessoa pode ter predisposição para enfrentar oscilações maiores, mas isso não significa que deva fazê-lo. Fatores como filhos pequenos, casamento, alta dependência financeira ou compromissos relevantes podem reduzir a capacidade real de assumir perdas, mesmo quando há vontade de correr risco.
Na aposentadoria, por exemplo, a margem para erros diminui significativamente, pois o investidor não tem novos recursos entrando para compensar eventuais perdas. Michael Viriato destaca que o perfil muda porque os objetivos e circunstâncias das pessoas não são estáticos. Metas financeiras se transformam e a renda também influencia a tolerância a risco.
É comum que investidores com alto rendimento se sintam confortáveis para assumir mais oscilação, mas se tornem mais conservadores quando esse fluxo diminui. O mesmo ocorre em mudanças de carreira, como quando alguém decide empreender e passa a rejeitar a volatilidade devido às incertezas do próprio negócio.
Perfil da carteira versus perfil do investidor
Para Castro, mais do que rotular a pessoa, o perfil deve ser atribuído à carteira. Um mesmo investidor pode assumir mais risco em determinados momentos, mas manter aplicações conservadoras para objetivos específicos, como a reserva de emergência.
A diferença entre renda fixa e variável está principalmente na previsibilidade: a primeira oferece retornos mais estáveis e costuma formar a base de carteiras conservadoras, enquanto a segunda envolve oscilação e tende a ser mais adequada a metas de longo prazo ou fases da vida em que há preparo para lidar com volatilidade.
Os especialistas enfatizam que, independentemente do momento, a diversificação ajuda a atravessar mudanças nos ciclos econômicos. Viriato sugere revisar o conceito brasileiro de conservadorismo, muito associado à aversão à oscilação. Um investimento de longo prazo pode oscilar bastante no curto prazo e, ainda assim, ser a forma mais conservadora de garantir um objetivo.
Para ele, conservador é quem atinge seu objetivo financeiro com mais certeza; já o agressivo é quem não tem essa segurança. Na prática:
- Investidores conservadores tendem a concentrar a carteira em caderneta de poupança, títulos de grandes bancos, Tesouro Selic e fundos de renda fixa.
- Perfis moderados equilibram renda fixa e renda variável em busca de retornos maiores.
- Agressivos costumam ter participação mais significativa em ativos sujeitos a variações de mercado, como ações.
Educação financeira e primeiros passos nos investimentos
Para quem está começando, a recomendação é investir no que conhece e, com o tempo, buscar informação para ampliar gradualmente o repertório. Castro aconselha priorizar conteúdos produzidos por instituições independentes, como CVM e Anbima, antes de seguir influenciadores ou orientações de instituições financeiras.
Viriato afirma que o aprendizado no mercado financeiro se constrói pela combinação entre estudo e prática. É ao vivenciar a oscilação do mercado que o investidor realmente aprende a lidar com o próprio perfil, adaptando-se às mudanças e objetivos ao longo da vida.