Fundação Casa em Sorocaba: Um Olhar sobre o Atendimento Socioeducativo
O silêncio que permeia as paredes da Fundação Casa em Sorocaba, no interior de São Paulo, é frequentemente interrompido pelo som metálico de portões de ferro e cadeados. Por trás dessas barreiras físicas, sonhos de jovens que, por diversas circunstâncias, foram interrompidos, buscam uma nova chance. Em uma visita recente às instalações, foi possível observar como a instituição trabalha para ajudar esses adolescentes a retomarem seus projetos de vida e reconstruírem seus futuros.
Estrutura e Organização das Unidades
Ao adentrar o local, uma porta imponente e de espessura larga se abre, revelando um cenário que, apesar das paredes altas, ganha suavidade com um pequeno jardim repleto de flores coloridas. Luciana Monteiro, diretora da Casa Sorocaba I, explica que há quatro centros de atendimento distintos, cada um com funções específicas.
"Quando o adolescente comete algum ato infracional, ele é encaminhado para a delegacia e, se o Poder Judiciário entender necessário, vai para a Fundação Casa Sorocaba 4, que funciona como atendimento inicial ou liberação direta para a família", detalha a diretora. Após essa fase, o jovem pode ser transferido para uma das outras três casas, conforme seu perfil e histórico de internações.
As Casas 1 e 2 são destinadas a adolescentes em sua primeira internação, enquanto a Casa 3 atende aqueles que já passaram pela fundação anteriormente. Casos de reincidência, segundo Luciana, geralmente envolvem jovens que já estavam no sistema. A maioria dos atendidos tem entre 12 e 13 anos, sendo meninos a grande parte, enquanto adolescentes de 18 anos só são internados em situações excepcionais.
Equipe Multidisciplinar e Plano Individual
Dentro da unidade, os adolescentes cumprem medidas socioeducativas determinadas pela Justiça, com base na avaliação de cada caso. O acompanhamento é realizado por uma equipe multidisciplinar, composta por profissionais de diversas áreas, que atuam no cuidado, orientação e desenvolvimento dos jovens durante o período de internação.
Cada adolescente tem um plano individual de atendimento, elaborado em conjunto com a equipe, o próprio jovem e sua família. Nesse plano, são definidas metas específicas para a medida socioeducativa. A participação familiar é incentivada, com visitas semanais aos domingos, com duração de quatro horas, onde cada jovem pode receber até quatro visitantes. Esses momentos são cruciais para fortalecer vínculos afetivos e identificar necessidades de apoio.
Educação e Atividades Culturais
A unidade conta com uma escola integrada à rede estadual, seguindo o mesmo currículo das instituições de ensino do estado. As salas são menores, o que facilita o aprendizado, especialmente para adolescentes que enfrentaram dificuldades ou abandonaram a escola anteriormente.
"Ele começa a retomar a rotina escolar; os professores também passam por avaliação para atendê-los. Temos todo esse cuidado, não só com os internados, mas também com os educadores", comenta Luciana, emocionada. Além das aulas regulares, os jovens participam de atividades culturais no contraturno, como oficinas de arte, visitas a museus e práticas esportivas, incluindo futsal.
Essas iniciativas garantem acesso à cultura e auxiliam no aprendizado, inclusive na alfabetização de quem não teve oportunidades fora da instituição. "As lacunas que ficam abertas ganham uma segunda chance de serem preenchidas", reflete a diretora, destacando que o objetivo é preparar os jovens para o mercado de trabalho, com programas de acompanhamento pós-saída.
Saúde Emocional e Apoio Psicológico
O acompanhamento psicológico é parte integrante da rotina dos adolescentes, com sessões individuais ou em grupo. Quando necessário, a unidade busca apoio externo, como os Caps Infantojuvenis, para garantir um atendimento adequado. A ideia é que, sempre que possível, o cuidado ocorra na cidade de origem do jovem, mantendo vínculos com equipamentos de saúde locais.
Esse suporte continua após a liberação, assegurando que o bem-estar emocional dos adolescentes seja restabelecido. "Se ele quiser continuar no Caps, a gente acompanha nesse processo", explica Luciana, reforçando o compromisso com a reinserção social.
Histórias de Transformação
José (nome fictício), um adolescente que está há dez meses na Fundação Casa, compartilha sua experiência. "A gente acorda cedo, toma café e, depois, participa das atividades do dia, como convivência, esportes, atividades pedagógicas e leitura na biblioteca", relata. Ele destaca seu gosto por ler gibis e praticar esportes, além de sonhar em se tornar cabeleireiro ou chef de cozinha.
Para José, esse período tem sido uma oportunidade de amadurecimento. "Aqui cuidam bem da gente, são educados, dão conselhos e nos ensinam a manter uma boa conduta, sair mais educados e aprender a tratar as pessoas com respeito". Ele planeja, ao sair, morar com o pai, continuar estudando e aproveitar uma bolsa no Senac para cursar gastronomia ou cabeleireiro.
A Fundação Casa em Sorocaba representa, assim, um espaço onde educação, cultura, esporte e saúde emocional se unem para oferecer uma segunda chance a jovens em conflito com a lei, promovendo reflexão e preparação para um retorno positivo à sociedade.