Pesquisa FGV: Motoristas de App Têm Renda Mais Estável que a Maioria dos Trabalhadores
Motoristas de App Têm Renda Mais Estável, Diz FGV

Estudo da FGV Desafia Intuição: Renda de Motoristas de App é Mais Estável

Uma pesquisa conduzida pela Fundação Getulio Vargas (FGV) em parceria com o IBGE trouxe à tona uma conclusão que contraria a percepção comum: a renda dos trabalhadores por aplicativo, como motoristas e entregadores, demonstra maior estabilidade comparada à de muitos outros profissionais no Brasil. O estudo, liderado pelo economista Daniel Duque, do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV), analisou dados recentes sobre o trabalho via plataformas digitais, incluindo serviços como Uber, 99, Ifood, Loggi e Lalamove.

Menos Exposição ao Desemprego Explica a Estabilidade

De acordo com a pesquisa, a estabilidade não se deve à ausência de flutuações nos ganhos mensais, que podem variar significativamente conforme a demanda. Em vez disso, o acesso a essas plataformas reduz a exposição dos trabalhadores a períodos prolongados de desemprego ou busca por vagas. Daniel Duque destacou que a surpresa inicial com os resultados deu lugar à compreensão de um fenômeno transformador. Ele explicou que, enquanto o emprego formal é teoricamente mais estável, a realidade para a maioria da população com até ensino médio completo envolve alta rotatividade entre empregos formais, intercalada com fases de desemprego ou informalidade.

"Para esses trabalhadores, os aplicativos promovem uma mudança brutal", afirmou Duque. A economia digital criou um "colchão" que permite às pessoas gerar renda rapidamente em momentos de necessidade, alterando a lógica tradicional do mercado de trabalho. Não se trata mais de uma escolha binária entre aceitar uma vaga ou ficar desempregado, mas sim de decidir quando trabalhar.

Metodologia e Impacto na Taxa de Desemprego

Para validar suas descobertas, o pesquisador da FGV comparou a evolução da renda ao longo de cinco trimestres entre perfis típicos de trabalhadores de aplicativos – como homens jovens de grandes centros urbanos com acesso à internet – e outros grupos. Os resultados indicaram flutuações menores na renda dos primeiros. Duque estima que o trabalho via plataformas digitais reduz a taxa de desocupação do país em até um ponto percentual. Por exemplo, a taxa recorde de 5,2% em novembro poderia ser de 6,2% na ausência dessas plataformas, evidenciando seu papel estrutural na economia.

Crescimento do Setor e Vantagens Salariais

O IBGE divulgou em novembro um estudo complementar que traça o perfil do trabalho por plataformas digitais, abrangendo transporte, entregas e intermediação de serviços como manutenção e faxina. O número de trabalhadores com os aplicativos como principal fonte de renda cresceu 25% de 2022 para 2024, alcançando 1,7 milhão de pessoas – equivalente a 2% da força de trabalho no setor privado. No mesmo período, a força de trabalho geral cresceu apenas 3%.

Além da estabilidade, a pesquisa revela vantagens salariais significativas para certos grupos. Pessoas sem ensino médio completo que atuam em aplicativos ganham, em média, R$ 2.870, enquanto seus pares em outras atividades recebem R$ 1.920 – uma diferença de cerca de 50%. Isso destaca o potencial dessas plataformas para melhorar a renda de trabalhadores de baixa escolaridade.

Desafios e Precariedade Persistem

Apesar dos benefícios, o estudo não ignora os sinais de precarização associados a esse tipo de trabalho. Os trabalhadores por aplicativo tendem a laborar mais horas, enfrentam taxas de informalidade substancialmente mais altas e, na grande maioria, não contribuem ou estão cobertos pela Previdência Social. Esses aspectos ressaltam a necessidade de políticas públicas que equilibrem a flexibilidade oferecida pelas plataformas com a proteção social dos trabalhadores.

Em resumo, a pesquisa da FGV/IBGE ilumina um cenário complexo onde a economia digital, impulsionada pelos aplicativos, está redefinindo a estabilidade e as oportunidades no mercado de trabalho brasileiro, especialmente para aqueles em situações vulneráveis.