CEO da Vale afirma que tragédias de Mariana e Brumadinho não são 'páginas viradas'
Em entrevista exclusiva, o presidente da Vale, Gustavo Pimenta, detalhou a profunda transformação que a mineradora vem passando desde a tragédia de Brumadinho, ocorrida em 2019. O executivo foi enfático ao afirmar que os desastres de Mariana e Brumadinho não são páginas viradas, mas sim aprendizados permanentes que seguem orientando as decisões da empresa.
Transformação cultural e operacional pós-Brumadinho
Pimenta assumiu a presidência da Vale após um longo processo de reconstrução e encontrou uma companhia que, embora estivesse avançando, precisava acelerar uma transformação cultural profunda. Desde 2021, com a entrada de novos executivos, a empresa implementou mudanças significativas em diversos aspectos:
- Processos internos e governança corporativa
- Políticas de sustentabilidade e diversidade
- Diálogo mais aberto com a sociedade
- Busca por maior estabilidade operacional
O CEO destacou que a consistência operacional se tornou um pilar essencial para qualquer estratégia da Vale. "Hoje, entregamos guidance de forma recorrente, algo que era uma fragilidade no passado", afirmou Pimenta, referindo-se às projeções financeiras da empresa.
Riscos interligados e mudança de mentalidade
Questionado sobre os principais riscos que a Vale enfrenta atualmente, Pimenta foi claro: "Os riscos nunca são únicos. Operacional, reputacional e socioambiental estão interligados". Ele enfatizou que uma empresa de infraestrutura como a Vale precisa estar extremamente alerta e ser capaz de se antecipar a potenciais problemas.
O presidente da mineradora também abordou as falhas culturais do passado que contribuíram para as tragédias. "A causa foi cultural. Falhas técnicas são consequência", explicou. Segundo ele, havia uma empresa muito hierárquica, com dificuldade de escuta e de fazer a informação chegar ao topo, o que levou a decisões erradas.
Novos critérios para decisões e crescimento
Pimenta foi categórico ao afirmar que a Vale mudou sua forma de tomar decisões. "Nenhuma decisão hoje é tomada olhando apenas o retorno econômico", declarou. Ele explicou que, se a equação ambiental e social não estiver resolvida, o projeto simplesmente não segue adiante.
O crescimento da empresa, segundo o CEO, só faz sentido quando acompanhado de sustentabilidade. "Crescimento só faz sentido com sustentabilidade", reforçou, destacando que a Vale não tolera mais lideranças que colocam resultados acima das pessoas.
Desafios de reputação e processo de reparação
O presidente da Vale reconheceu que a mineração tem um desafio estrutural de reputação, mas defendeu a importância da atividade. "O mundo vive melhor porque algo foi minerado, e o futuro exigirá ainda mais minerais", argumentou.
Sobre o processo de reparação das tragédias, Pimenta admitiu que poderia ter sido melhor, especialmente no caso de Mariana. "Reconhecidamente demorou", afirmou, destacando que a conclusão do acordo, após quase dez anos, foi fundamental para reduzir incertezas e permitir que a empresa olhasse para o futuro.
Equilíbrio entre transição energética e impactos locais
Questionado sobre como equilibrar a transição energética – que demanda minerais como cobre e níquel – com os impactos locais, Pimenta defendeu uma abordagem de ecossistema. Ele citou o exemplo de Carajás, onde a Vale usa apenas 2% do território e preserva 800.000 hectares.
"A mineração pode viabilizar preservação ambiental e impacto social positivo ao mesmo tempo", afirmou o CEO, demonstrando otimismo sobre o futuro da atividade mineradora quando conduzida com responsabilidade.
Legado e visão para o futuro
Quando perguntado sobre como gostaria de ser lembrado daqui a dez anos, Gustavo Pimenta expressou o desejo de fazer parte de uma gestão que ajudou a construir uma Vale diferente. "Mais segura, mais estável, protagonista da indústria e capaz de gerar valor para acionistas, sociedade e seus funcionários", concluiu.
A entrevista revela uma empresa em processo contínuo de transformação, que busca conciliar desempenho financeiro com responsabilidade socioambiental, sem esquecer as lições dolorosas do passado.