Uma combinação poderosa de impostos baixíssimos, encargos trabalhistas reduzidos e estabilidade econômica está provocando um movimento significativo de indústrias brasileiras para o outro lado da fronteira. Nos últimos vinte anos, mais de 200 companhias do Brasil estabeleceram operações no Paraguai, em um fenômeno que expõe as desvantagens competitivas do ambiente de negócios nacional.
A Fórmula Paraguai: Atrativos que o Brasil não oferece
O coração dessa migração industrial bate sob o regime conhecido como Lei Maquila. Inspirado no modelo mexicano, o sistema paraguaio concede benefícios fiscais extraordinários para empresas que se instalem no país com a condição de que toda a sua produção seja exportada. As companhias que aderem ao regime têm a isenção de impostos sobre a importação de matéria-prima e componentes e pagam uma alíquota irrisória de apenas 1% sobre o valor agregado aos produtos que enviam para o exterior.
Não é apenas a tributação que chama a atenção. Cristiano Corrêa, professor de finanças do Ibmec, destaca outros fatores decisivos: "Encargos trabalhistas reduzidos, energia elétrica barata e abundante — graças à Usina de Itaipu —, câmbio estável e uma segurança jurídica razoável são outros elementos que aliviam o caixa das indústrias". Estima-se que, de cada dez indústrias maquiladoras no Paraguai, sete tenham origem brasileira.
Empresas que Cruzaram a Fronteira em Busca de Competitividade
O movimento, que se intensificou após a crise econômica de 2014, ganhou novo fôlego recentemente. A Lupo, referência no setor de confecções, anunciou planos de abrir sua primeira fábrica fora do Brasil justamente no Paraguai, com um investimento de 25 milhões de reais em Ciudad del Este. A expectativa da empresa é de uma redução de custos de produção de pelo menos 28%.
"Trata-se de uma reação necessária para aumentar a nossa competitividade", afirma Liliana Aufiero, presidente da Lupo. Ela cita a concorrência acirrada com produtos chineses e paraguaios de baixo custo como um dos motivos para a mudança. A fabricante de calçados infantis Kidy também prepara suas malas, com planos de inaugurar uma unidade em Assunção ou Ciudad del Este ainda este ano, o que deve reduzir drasticamente a operação em Mato Grosso do Sul.
Elas se juntam a um grupo que já inclui marcas como Estrela (brinquedos), Buddemeyer (artigos de cama e banho), Koumei (lâmpadas) e o grupo Lunelli (moda).
Os Limites da "Fuga" e o Desafio Brasileiro
Contudo, a relocalização para o Paraguai não é uma solução viável para todos os setores. Fernando Pimentel, da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, adverte: "É importante notar que o Brasil não cabe dentro do Paraguai". Com uma população de cerca de 6,4 milhões de habitantes, o país vizinho enfrenta carência de mão de obra qualificada e limitações logísticas, beneficiando principalmente as "indústrias leves", como têxteis, plásticos e embalagens.
Para especialistas, cada empresa que migra envia um recado claro sobre os problemas do chamado "custo-Brasil". Paulo Vicente, professor da Fundação Dom Cabral, é direto: "Essa competição obriga nosso país a tomar vergonha na cara e arrumar a casa". Ele, que já aconselhou empresas a fazerem a mudança, torce para que essa alternativa se torne menos atraente no futuro.
Do lado do governo brasileiro, Uallace Moreira, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), cita as reformas tributária e trabalhista em andamento como passos para melhorar a competitividade, mas reconhece que o gargalo ainda é grande. Ele também alerta para a necessidade de evitar práticas de dumping na concorrência com produtos paraguaios, que entram no Brasil sem barreiras relevantes devido ao Mercosul.
Enquanto o Paraguai colhe os frutos de sua política de atração industrial, o Brasil vê a urgência de enfrentar seus próprios desafios estruturais. O êxodo de fábricas é um sinal de alerta que parece longe de ser desligado, com Ricardo Gracia, da Kidy, prevendo: "Acho que ainda estamos no começo da fila".