Febre do ouro: especialista compara alta recorde do metal a infecção no sistema econômico
O preço do ouro atingiu um marco histórico nesta semana, ultrapassando a marca de US$ 5.500 no mercado internacional. Para entender esse fenômeno econômico extraordinário, o pesquisador Sérgio Vale, do Instituto de Estudos Avançados da USP e economista-chefe da MB Associados, oferece uma analogia médica surpreendente em entrevista ao podcast O Assunto.
Uma febre sem remédio aparente
"O ouro é como se fosse uma febre. E o que a gente precisa agora é identificar a causa dessa febre", explica Vale. "É uma bactéria, é um vírus, é uma bactéria agressiva? Os remédios que existem resolvem?" Diferente de crises anteriores, o especialista acredita que o cenário atual apresenta características únicas e preocupantes.
Vale contrasta a situação atual com a crise dos anos 70, quando Paul Volcker implementou medidas que funcionaram como um "remédio" eficaz. Volcker, que faleceu em dezembro de 2019, foi fundamental na reformulação da ordem monetária internacional que desmontou o sistema ouro-dólar estabelecido pelos acordos de Bretton Woods em 1944.
"Nos anos 70, a febre do ouro que a gente teve tinha remédios. O Volcker foi um remédio, trouxe soluções da economia que funcionaram e aí a febre passou", recorda o economista. "A febre do ouro agora, eu tenho a impressão que não tem remédio, que não tem antibiótico de última geração para solucionar essa crise nesse momento. Porque o agente causador infeccioso agressivo continua presente."
Os fatores por trás da valorização recorde
A escalada do preço do ouro é alimentada por uma combinação complexa de fatores políticos e fiscais, com especial destaque para as ações do governo de Donald Trump em sua segunda passagem pela Casa Branca:
- Incerteza política e institucional: Ataques diretos à independência do Federal Reserve e processos contra diretores do banco central americano geram instabilidade profunda.
- Crise fiscal nos Estados Unidos: Uma política fiscal mal estruturada tem produzido grandes déficits e dúvidas sobre a capacidade de ajuste do Congresso americano.
- Tensões geopolíticas sem precedentes: Disputas comerciais com a China e ameaças erráticas contra países da OTAN pressionam os mercados globais.
Movimentações recentes no mercado
Na sexta-feira (30), uma indicação presidencial trouxe alguma estabilidade momentânea. Donald Trump nomeou o economista Kevin Warsh para comandar o Federal Reserve, substituindo Jerome Powell cujo mandato termina em maio. Warsh é visto como favorável a juros mais baixos, mas considerado menos radical do que outras opções avaliadas.
A indicação, que ainda precisa ser aprovada pelo Senado, foi bem recebida pelo mercado. Como resultado imediato, o dólar ganhou força e ativos alternativos perderam valor temporariamente, com o ouro registrando queda de 3,7% nesse movimento específico.
Contexto histórico e perspectivas
A decisão unilateral dos Estados Unidos em 15 de agosto de 1971, anunciada por Volcker quando ocupava o cargo de subsecretário do Tesouro no governo Nixon, marcou o início do regime de câmbio flutuante. Nesse sistema, o valor das moedas passou a ser determinado pelo mercado sem controle rígido dos governos, rompendo a conversibilidade direta do dólar em ouro.
Hoje, segundo a análise de Sérgio Vale, enfrentamos uma desorganização profunda nas instituições americanas que difere qualitativamente de crises anteriores. O especialista enfatiza que a "febre do ouro" atual parece não ter soluções convencionais disponíveis, representando um desafio estrutural para a economia global.
O podcast O Assunto, produzido pelo g1 e disponível em todas as plataformas de áudio e no YouTube, abordou o tema em detalhes. Desde sua estreia em agosto de 2019, o programa acumula mais de 168 milhões de downloads em plataformas de áudio e 14,2 milhões de visualizações no YouTube.