O mercado financeiro brasileiro inicia 2026 com um desempenho histórico. Após uma alta expressiva em 2025, o Ibovespa, principal índice da bolsa de valores do país, mantém o ritmo acelerado e fecha o mês de janeiro com resultados impressionantes.
Desempenho recorde do índice
Nesta sexta-feira, 30 de janeiro, o Ibovespa encerrou as negociações aos 181.364 pontos. Esse fechamento representa uma valorização superior a 12% acumulada no mês, configurando o melhor resultado para janeiro em duas décadas, conforme dados divulgados pela B3, a bolsa brasileira.
O índice já registrou oito recordes de fechamento apenas neste ano e acumula uma alta extraordinária de 43% nos últimos doze meses. Esse movimento vigoroso é impulsionado por uma combinação de fatores macroeconômicos favoráveis.
Fatores por trás da alta
Entre os principais motivos para esse otimismo estão as expectativas de cortes nas taxas de juros tanto no Brasil quanto no exterior, além da retomada significativa da entrada de capital estrangeiro na bolsa brasileira. Na prática, investidores que alocaram recursos em produtos vinculados ao Ibovespa ao longo do último ano tiveram motivos sólidos para comemoração.
A valorização do índice superou, com folga, o desempenho do CDI, taxa de referência do mercado que acompanha a Selic. Atualmente, a taxa básica de juros brasileira permanece em 15% ao ano, o patamar mais elevado em quase vinte anos.
Realização de lucros e dúvidas dos investidores
Contudo, esse cenário de ganhos expressivos também gera questionamentos entre potenciais novos investidores. Quando os retornos com ações atingem níveis elevados, o mercado costuma testemunhar movimentos de realização de lucros, conhecidos internacionalmente como take profit.
Esse fenômeno ocorre quando investidores que adquiriram ações em momentos de baixa decidem vendê-las para converter os ganhos em capital líquido. Quando essa prática se torna generalizada, os preços desses ativos tendem a recuar, criando um ambiente de volatilidade.
Vale a pena investir agora?
Diante desse contexto, e considerando que a rentabilidade da renda fixa continua atrativa, surge a pergunta crucial: ainda vale a pena investir na bolsa e aproveitar o boom das ações? Ou será que o bonde já partiu e apenas quem já investiu colherá os frutos?
Especialistas consultados são unânimes em afirmar que ainda há espaço para investir em ações e aproveitar o bom momento do mercado brasileiro. Segundo análises setoriais, empresas de determinados segmentos podem se beneficiar consideravelmente nos próximos meses.
Perspectivas para os próximos meses
A expectativa de corte da Selic já na próxima reunião do Comitê de Política Monetária, em março, é um dos fatores mais aguardados. Projeções de analistas de mercado indicam que a taxa básica de juros deve cair para 12,25% ao ano até o final de 2026.
Bruna Sene, analista de renda variável da Rico, destaca que mesmo após uma alta tão expressiva do índice, ainda pode ser vantajoso investir na bolsa. Ela explica que a realização de lucros é um processo natural e que pode inclusive criar novas oportunidades de entrada para investidores.
"Não é porque o Ibovespa subiu muito que todos os papéis também se valorizaram da mesma forma. Por isso, a seletividade nas ações continua sendo importante", afirma a especialista.
Setores com maior potencial
André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica, ressalta que as condições estão favoráveis para a economia brasileira, com expectativa de retomada do crescimento em ritmo similar ao projetado para 2025. Naquele ano, o mercado estima que o Produto Interno Bruto tenha avançado 2,26%.
Gabriela Barssottini, CFP e assessora de investimentos da Knox Capital, lembra que no último ano as empresas que mais se destacaram foram do setor da construção civil, de tecidos, vestuário e calçados, além de intermediários financeiros.
O setor bancário apresentou desempenho especialmente forte: as ações do Itaú subiram aproximadamente 70% em doze meses, as do Bradesco avançaram mais de 80% e as do BTG Pactual superaram 90%. O Santander registrou crescimento de 50%, enquanto o Banco do Brasil recuou cerca de 5%.
"Os bancos estão entre os setores com maior potencial para 2026, beneficiados pela margem de lucro nas operações de crédito, pela expansão do crédito e pela queda futura da taxa de juros", afirma Barssottini.
Influência internacional e commodities
Além da expectativa de um ciclo de cortes na Selic, André Galhardo destaca a força das economias dos Estados Unidos e, particularmente, da China. Esse fator beneficia diretamente as exportações brasileiras de commodities.
"O Banco Popular da China promete, em 2026, continuar oferecendo instrumentos para que a economia cresça no ritmo desejado pelo Partido Comunista Chinês. Isso beneficia, por exemplo, as empresas mineradoras", explica Galhardo.
A Vale acompanhou o bom momento do setor no último ano. Os papéis da mineradora, que possui um dos maiores pesos no Ibovespa, subiram mais de 70% em doze meses. Esse movimento também pode beneficiar a Petrobras.
A lógica é clara: com grandes potências econômicas aquecidas e maior consumo global, a demanda por commodities aumenta, elevando seus preços internacionais. Isso beneficia empresas exportadoras brasileiras, valoriza seus papéis e atrai investidores, impulsionando toda a bolsa de valores.
E a renda fixa nesse cenário?
Os investimentos em renda fixa acompanham ou são diretamente influenciados pela Selic. A projeção de Antônio Sanches, analista de research da Rico, é de um corte de 0,5 ponto percentual nos juros em março, seguido por mais quatro reduções consecutivas da mesma magnitude.
Isso levaria a taxa básica a 12,50% no segundo semestre de 2026. Sanches destaca que mesmo com a redução, os investimentos em renda fixa devem permanecer em níveis elevados, considerando o risco relativamente baixo para o investidor.
"Com isso, a renda fixa continua bastante atrativa, assim como os títulos pós-fixados, especialmente para objetivos de curto prazo ou para investidores conservadores que buscam previsibilidade na rentabilidade", afirma o analista.
Principais opções de renda fixa
- Tesouro Direto: Inclui Tesouro Selic, Tesouro Prefixado e Tesouro IPCA+. É um empréstimo ao governo federal, com remuneração vinculada à Selic, a uma taxa fixa ou à inflação. Costuma ser considerado o investimento mais seguro do país.
- Títulos bancários: Incluem CDB, LCI, LCA e LC. São empréstimos a bancos, que pagam juros ao investidor. Muitos contam com proteção do Fundo Garantidor de Créditos, de até R$ 250 mil por CPF e por instituição financeira.
- Crédito privado: Inclui debêntures, CRI e CRA. São empréstimos a empresas ou a setores específicos, como imobiliário e agronegócio. Em geral, oferecem maior rentabilidade, mas com nível de risco mais elevado.
- Fundos de renda fixa: Reúnem diversos títulos de renda fixa em uma carteira gerida por um profissional, facilitando a diversificação e o acesso a diferentes ativos financeiros.
Sanches enfatiza a importância da diversificação da carteira de investimentos, evitando concentrar percentual muito elevado em um único emissor ou mesmo em um único setor da economia.
"Isso ajuda a evitar eventuais estresses de crédito no mercado, especialmente em um cenário de juros elevados por um período prolongado", conclui o especialista.
Entendendo o otimismo da bolsa
Segundo analistas, o bom desempenho da bolsa brasileira refletiu, sobretudo, os seguintes fatores:
- Cortes de juros nos Estados Unidos, com expectativa de novas reduções em 2026.
- Realocação de investimentos em meio a incertezas sobre as contas públicas e a política econômica de Donald Trump nos EUA, o que favoreceu ativos brasileiros.
- Expectativa de cortes de juros no Brasil, com o mercado atento às projeções para 2026.
- Maior resiliência do Brasil nas tensões comerciais com os Estados Unidos, reduzindo impactos sobre empresas exportadoras.
- Ações de empresas brasileiras ainda negociadas abaixo dos níveis pré-pandemia, o que atraiu investidores em busca de oportunidades.
- Expectativa de mudanças no cenário político, especialmente na condução das contas públicas, com a proximidade das eleições de 2026.
O mercado financeiro brasileiro demonstra vitalidade e atrai a atenção de investidores nacionais e internacionais, criando um ambiente de oportunidades, mas que exige análise cuidadosa e diversificação para quem deseja participar desse movimento.