Dólar dispara 0,99% com indicação de Kevin Warsh para o Fed, mas acumula queda mensal
Dólar sobe 0,99% com indicação de Warsh para o Fed

Dólar tem forte alta de 0,99% em sessão marcada por indicação ao Fed

O dólar apresentou uma valorização acentuada de 0,99% nesta sexta-feira, 30 de janeiro, encerrando o pregão cotado a R$ 5,246. O movimento foi impulsionado pelo anúncio da indicação de Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos. A notícia, divulgada pelo presidente Donald Trump em suas redes sociais, gerou reações imediatas nos mercados financeiros globais.

Contexto mensal e desempenho da Bolsa brasileira

Apesar da alta expressiva nesta sessão, a moeda norte-americana acumulou uma queda de 4,4% desde o dia 30 de dezembro, quando fechou em R$ 5,487. Na quinta-feira, 29 de janeiro, o dólar chegou à cotação de R$ 5,194, o menor valor em quase dois anos. Esse movimento de desvalorização foi reflexo da entrada maciça de investidores estrangeiros no país, um fluxo de capital que catapultou o Ibovespa de 161.125 pontos para 184.691 pontos, último recorde da Bolsa brasileira registrado na quarta-feira.

O índice, no entanto, fechou em queda firme de 1,1% neste pregão, a 181.106 pontos, segundo dados preliminares. A Bolsa brasileira acumulou alta de 13% ao longo de janeiro, no que foi o melhor desempenho mensal desde o início da pandemia de coronavírus.

Indicação de Kevin Warsh e reações políticas

O anúncio da indicação de Kevin Warsh para o Fed foi feito através das redes sociais do presidente Donald Trump. Em sua publicação, Trump afirmou: "Conheço Kevin há muito tempo e não tenho dúvida de que ele entrará para a história como um dos GRANDES presidentes do Fed, talvez o melhor. Além de tudo, ele é 'central casting' e nunca vai decepcionar". As declarações dialogam com os ataques recorrentes de Trump a Jerome Powell, indicado pelo republicano em seu primeiro mandato, em 2017, e reconduzido ao cargo pelo democrata Joe Biden, em 2021.

Desde o início do segundo mandato de Trump, Powell tem sido alvo de críticas por resistir às pressões da Casa Branca por cortes mais agressivos na taxa de juros. Para Trump, a taxa norte-americana deveria ser reduzida para 1,5%. Os Fed Funds foram mantidos na banda de 3,5% e 3,75% na quarta-feira, 28 de janeiro, uma pausa no ciclo de cortes de juros então em curso desde setembro do ano passado.

Trump ainda complementou em sua rede social Truth Social: "Deveríamos ter uma taxa substancialmente mais baixa agora que até esse idiota admite que a inflação não é mais um problema ou uma ameaça. Ele está custando à América centenas de bilhões de dólares por ano em despesas com juros totalmente desnecessárias e sem justificativa."

Processo de confirmação e incertezas no mercado

A indicação de Warsh para o cargo precisa ser confirmada pelo Senado até 15 de maio, data que marca o fim do mandato de Powell. Operadores temiam tentativas de interferência política nas decisões do Fed, um banco central independente, através da escolha do novo presidente. Pela manhã, a percepção era de que Warsh era um "nome com credibilidade" e que, apesar de defender juros baixos, "teria uma postura 'hawkish' [agressiva no combate à inflação]", segundo análise inicial de Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad.

Essa visão diminuiu "o risco de captura política total do banco central" e deu espaço para que as curvas de juros futuros dos Estados Unidos se acomodassem. Mas, ao longo da tarde, declarações de membros da Casa Branca sobre o indicado ao cargo mudaram a leitura do mercado. "Acabaram sendo interpretadas como um sinal de que Warsh deverá ter uma postura mais sensível ao crescimento econômico e menos inclinada à manutenção de juros elevados por tempo prolongado", diz Gabriel Cecco, especialista da Valor Investimentos.

Cecco ainda ressalta: "Isso não quer dizer que o Fed vai cortar as taxas de juros imediatamente, mas a análise é que o Fed poderá ser menos duro do que o mercado tinha antes precificado." Trump afirmou nesta tarde que confia que Warsh está inclinado a diminuir os juros. Kevin Hassett, assessor econômico da Casa Branca e um dos nomes então cotados para o Fed, disse que o banco central cometeu um erro ao não reduzir os juros nesta semana e pediu pela rápida aprovação de Warsh para o cargo.

Reações políticas e impactos nas curvas de juros

Já o líder democrata no Senado, Chuck Schumer, disse que os republicanos não deveriam aprovar a indicação se as ações criminais contra Powell não forem retiradas. "Se Donald Trump não desistir de sua vendeta contra o Fed, usando o Departamento de Justiça como arma para perseguir Powell e [Lisa] Cook, os republicanos não deveriam aprovar a indicação do sr. Warsh", afirmou. As declarações mexeram com as curvas de juros, um dos mercados mais sensíveis globalmente.

Cecco explica: "Quando investidores passam a acreditar que o próximo presidente do Fed pode tolerar cortes mais cedo, ou reagir de forma menos agressiva à inflação, o rendimento das treasuries [títulos do Tesouro dos EUA] tendem a ceder, o que, no futuro, pode enfraquecer o dólar e favorecer mercados emergentes. Mas é uma mudança em camadas. Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com a independência do Fed. Se a política monetária parecer influenciada pela Casa Branca, o prêmio de risco estrutural tende a subir. A leitura fica mais suave para juros no curto e médio prazo, mas quem manda no longo prazo é o debate sobre a credibilidade institucional do Fed."

Desempenho global do dólar e volatilidade local

Após o anúncio, o dólar se valorizava globalmente. O índice DXY, que mede o desempenho da divisa em relação a seis moedas fortes, subia 0,8%, a 96,97 pontos. No mercado local, a definição da Ptax de fim de mês adicionou volatilidade ao câmbio. Calculada pelo Banco Central com base nas cotações do mercado à vista, a Ptax serve de referência para a liquidação de contratos futuros.

No fim de cada mês, agentes financeiros tentam direcioná-la a níveis mais convenientes às suas posições, sejam elas compradas (no sentido de alta das cotações) ou vendidas em dólar (no sentido de baixa). Esse processo contribuiu para a movimentação observada na sessão, reforçando a alta do dólar frente ao real.