BRB reafirma solidez duas vezes ao dia após rombo com Banco Master
BRB diz estar 'sólido' duas vezes ao dia após caso Master

Em um movimento atípico que chamou a atenção do mercado financeiro, o Banco de Brasília (BRB) emitiu dois comunicados no mesmo dia, 19 de janeiro de 2026, reafirmando sua solidez e operação normal. A insistência na mensagem ocorre em meio a um cenário de incertezas sobre a real situação do banco público, envolvido em transações obscuras com o recém-liquidado Banco Master.

Comunicados em série e a sombra do Master

Na manhã da segunda-feira, o BRB anunciou ao mercado que se encontrava "sólido, estável e operando normalmente, sem qualquer risco de intervenção". Poucas horas depois, no final da tarde, o banco voltou a se pronunciar, desta vez para emitir um "comunicado ao mercado a respeito de suposta insuficiência patrimonial", no qual reafirmou que "permanece sólido, operando normalmente".

A repetição da mensagem em um intervalo tão curto é vista com desconfiança por analistas. A menção à palavra "intervenção", rara em notas oficiais de instituições financeiras, aumentou o alerta. O banco, que completou 60 anos e é um dos poucos bancos públicos regionais remanescentes, é controlado pelo governo do Distrito Federal, detentor de 53,7% do capital.

As operações problemáticas e o vínculo político

O cerne da crise está nas operações realizadas com o Banco Master, alvo de uma fraude bilionária e subsequentemente liquidado pelo Banco Central. Na gestão do governador Ibaneis Rocha (MDB), virtual candidato ao Senado, o BRB foi levado a transações consideradas obscuras com o Master. A instituição chegou a negociar a compra do banco em crise, mas a operação foi vetada pela autoridade monetária.

Embora, no papel, o BRB seja um banco de médio porte com ativos de 74 bilhões de reais, a realidade aponta para um rombo de dimensões ainda não divulgadas, resultado dessas operações. Em seus comunicados, o banco admitiu, de forma vaga, "eventuais prejuízos decorrentes de determinadas operações", sem detalhar valores ou a natureza dos negócios.

Plano de capital e o futuro incerto

Para tentar acalmar o mercado e os correntistas, o BRB recorreu ao argumento de que dispõe de um plano para recomposição de capital, que poderia ser acionado se necessário. A instituição também destacou que eventuais aportes do acionista controlador, o governo distrital, "não retiram recursos já previstos no orçamento para políticas públicas", uma mensagem claramente direcionada a políticos com interesses no orçamento local.

Esta já foi a terceira vez em menos de uma semana que o banco emite notas públicas enfatizando sua solvência. Na quarta-feira anterior, 14 de janeiro, uma comunicação similar já havia sido divulgada. Apesar do esforço de comunicação, especialistas questionam por quanto tempo a estratégia de repetir "pílulas de otimismo" será eficaz.

O caso coloca em evidência a teia política que protegeu o Banco Master e agora envolve o BRB, levantando dúvidas sobre quando e como a instituição conseguirá sair da situação desastrosa em que se meteu. A solução do problema, além de financeira, dependerá de desfiar complexos nós políticos.