Inflação de 2026 inicia com ar mais brando e expectativas de cortes na Selic
O ano de 2026 começa com um cenário inflacionário mais brando, após a divulgação do IPCA-15 de janeiro, que registrou uma alta de apenas 0,20%. Este resultado ficou abaixo das expectativas do mercado, que giravam em torno de 0,23%, e também foi inferior aos 0,25% observados no IPCA-15 de dezembro. A informação, divulgada pelo IBGE nesta terça-feira, ganha ainda mais relevância quando conjugada à redução de 5,2% no preço de venda da gasolina nas refinarias da Petrobras às distribuidoras, medida que entrou em vigor a partir de hoje.
Impacto da gasolina e composição do índice
A gasolina é o item com maior peso no IPCA, representando 5,2% entre os 377 produtos e serviços pesquisados pelo IBGE. No IPCA-15, ela subiu 1,01% devido ao reajuste do ICMS, contribuindo com 0,05 ponto percentual para a taxa geral de 0,20%. Isso significa que a gasolina foi responsável por 25% da inflação mensal. Comparativamente, em janeiro de 2025, a inflação foi de apenas 0,16%, e a taxa acumulada em 12 meses agora está em 4,26%. Analistas destacam que, para haver um estouro do teto de 4,50% em 12 meses, seria necessário que o IPCA cheio superasse os 4%, o que parece improvável diante das projeções atuais, que variam entre 3,0% e 3,4%.
Mudanças no Banco Central e precisão nas projeções
O bom resultado do IPCA-15 foi divulgado no primeiro dos dois dias de reuniões do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom), o que pode suscitar mudanças na visão sobre a política de juros a médio prazo. O Copom terá apenas seis diretores e mais o presidente Gabriel Galípolo, devido ao fim dos mandatos, em 31 de dezembro, de Diogo Guillen da diretoria de Política Econômica (Dipec) e de Renato Brito Gomes da diretoria de Organização do Sistema Financeiro (Diorf).
Atualmente, a Dipec está sendo acumulada pelo economista Paulo Pichetti, diretor da Área Externa. Com seu perfil de especialista em contas nacionais, no Ibre da FGV, Pichetti sempre foi cotado para ocupar a diretoria de Política Econômica, o que poderá ocorrer com a indicação das duas vagas na diretoria. Já a Diorf, onde Brito Gomes resistiu à fusão do Banco Master com o BRB, está sendo acumulada pelo diretor de Normas, Gilneu Vivan.
Espera-se que Pichetti possa ajudar o Banco Central a ser mais preciso nas projeções de inflação e demais indicadores macroeconômicos, divulgados trimestralmente no Relatório de Política Monetária. No ano passado, o BC errou em algumas previsões, como a do PIB, que previa alta de 1,9% no RPM de março, enquanto a última previsão é de 2,3%. Além disso, em dezembro, previa IPCA de 4,4% (resultado foi 4,26%), saldo comercial de US$ 64 bilhões (deu US$ 59,9 bilhões) e déficit em conta corrente de US$ 60 bilhões (resultado foi -US$ 68,8 bilhões).
Decomposição da inflação e fatores de pressão
Na decomposição da inflação, o grupo Alimentação e Bebidas subiu 0,31%, com destaque para altas em tomate (16,2%, contribuindo com 0,03 ponto percentual), batata-inglesa (+12,74%, ou 0,02 p.p.) e carnes (alta de 1,32%). Por outro lado, a queda de 2,91% na energia elétrica residencial, devido à troca da bandeira amarela em dezembro para a verde em janeiro, reduziu em 0,12 p.p. a pressão sobre o IPCA, fazendo o grupo Habitação cair 0,26%.
O segundo maior impacto veio da queda de 8,92% em passagem aérea (impacto de -0,07 p.p.), que, junto com a queda de 2,79% em ônibus urbano – decorrente da gratuidade das passagens aos domingos em Belo Horizonte –, compensou a alta da gasolina e fez o grupo Transporte ter baixa de 0,13%. Do lado das altas, destacou-se o aumento de 0,81% em Saúde e cuidados pessoais (+0,11 p.p), impulsionado pela alta de 1,38% em artigos de higiene pessoal e 0,49% em plano de saúde.
Previsões para a taxa Selic e cenários econômicos
Economistas analisam que os indicadores do mercado de serviços, que funcionam como termômetro do mercado de trabalho, mostraram que os “serviços subjacentes” ficaram praticamente estáveis, passando de 0,52% para 0,53%. Luiz Otávio Leal, da G5 Partners, sublinha que, “no acumulado em 12 meses dos ‘Serviços subjacentes’, o grande calcanhar de Aquiles da inflação brasileira, os preços desaceleraram de 6,04% para 5,59% - o menor patamar desde novembro de 2024”.
Já Felipe Salto, da Warren Investimentos, projeta, após a leitura do IPCA-15, o início do ciclo de flexibilização na reunião de março, com um corte inicial de 50 pontos-base, seguido de reduções sucessivas que encerrariam o ano em 12%. No entanto, ele alerta que, caso os riscos inflacionários se materializem e a pressão do mercado de trabalho persista, o ajuste agregado pode ser menor, com o Banco Central reduzindo a taxa em 200 pontos-base, em vez dos 300 inicialmente previstos. Nesse cenário, a Selic poderia fechar o ano em 13,00%, em vez dos 12,00% previstos pelo Bradesco, enquanto o Itaú espera a Selic terminal em 12,75%.