Divergência entre economistas sobre patamar da Selic em 2025
Gestores de investimentos têm apresentado visões distintas em relação à estimativa para a taxa Selic terminal de 2025. Enquanto o consenso do mercado, conforme o último boletim Focus, indica juros a 12% ao ano em dezembro, previsões de um patamar inferior começam a ganhar espaço nos debates entre especialistas.
Projeção abaixo do consenso
Bruno Serra, ex-diretor de política monetária do Banco Central e atual gerente de portfólios do Itaú Asset Management, afirma acreditar que a taxa básica de juros deve encerrar o ano em 11% ao ano, "no mínimo". A análise foi compartilhada durante evento do BTG Pactual nesta quarta-feira (25) e recebeu endosso de Marco Freire, gestor de investimentos da Kinea, e Christiano Chadad, sócio e gestor do BTG Volt.
Serra apresentou uma sequência de dados para sustentar sua argumentação:
- A inflação deve rodar em torno de 3% até outubro e finalizar em 3,5% no acumulado anual
- O PIB (Produto Interno Bruto) está próximo do potencial, em 2%, sustentado pelo agronegócio e extrativa mineral
- Excluindo agro e minérios, o restante da economia com potencial inflacionário está em 1,5% e desacelerando
- Mercado de trabalho apresenta desaceleração, com salários fortes, mas previsão de queda conforme inflação se aproxima da meta
O conjunto de fatores leva o gestor a crer que o BC entrará em um ciclo de cortes acelerado, especialmente ao considerar inflação corrente em 3% e desaceleração econômica. "O juro neutro do BC é 8,5%. O do mercado é 9,5%. Eu dou mais 1,5 ponto percentual de lambuja para sugerir que a Selic termina o ano em 11%, para menos", afirmou Serra.
Conceito de juro neutro e ritmo de cortes
"Juro neutro" refere-se à taxa de juros real, descontada a inflação, representando um nível de restrição monetária que mantém a economia em equilíbrio, sem acelerar a inflação nem frear o crescimento econômico. Para alcançar esse patamar conforme variáveis de inflação e PIB se impõem, Serra prevê que o BC terá de cortar a Selic em ritmo mais acelerado do que o consenso do mercado antecipa.
O gestor, que assume ter "uma visão bem fora do consenso", avalia que a primeira redução será de 0,5 ponto percentual em maio, seguida por duas de 0,75 ponto a partir de junho. "O risco é da Selic parar em 9% no final do ano, e não em 12%", destacou.
Endosso e ressalvas de outros gestores
Chadad, do BTG, endossa a perspectiva de cortes acelerados, especialmente antes das eleições presidenciais. "Cortar durante o processo eleitoral não faz parte da história do Brasil", afirmou. Ele ressalta que as previsões se baseiam na manutenção da atual política fiscal até o fim do ano. Se o governo decidir gastar mais, o cenário muda, e "a combinação de Executivo gastando muito com BC perseguindo meta deve chegar ao fim".
Freire, da Kinea, avalia que a Selic em 15% é uma "excrescência", e Selic em 12% também seria. "Vou comparar com países emergentes 'meia boca'. México está com inflação em 4% e juros em torno de 6,5%. África do Sul tem inflação em 3% e juros rodando 6%. Quando falamos de Selic em 12%, é o dobro", analisou. "O Brasil tem nível de dívida mais alto, mas temos instituições fortes. 12% ainda me parece muito fora do lugar".
Cautela do Banco Central
No boletim Focus desta semana, economistas reduziram pela primeira vez em mais de quatro meses a previsão sobre a Selic terminal, de 12,25% para 12,13%. Apesar das projeções de mercado, o BC mantém discurso cauteloso. Em evento no dia 11 de fevereiro, Gabriel Galípolo, presidente da instituição, reforçou que a palavra-chave do momento é "calibragem".
Ele afirmou que o BC seguirá dependente dos dados e não pretende oferecer sinalizações adicionais sobre os próximos passos do Copom (Comitê de Política Monetária) além do já comunicado. Galípolo também negou que o uso recente dos termos "serenidade" e "parcimônia" representaria alteração na estratégia da instituição. "Não há nenhuma mudança de função de reação", declarou.
Sobre o resto do ano, o presidente do BC destacou que "qualquer sinalização corre o risco de ser frustrada e causar mais dano do que ajudar", referindo-se ao cenário incerto de geopolítica, mudanças na política econômica dos Estados Unidos e as eleições brasileiras.



