Estatais federais acumulam déficit bilionário em 2025, segundo dados do Banco Central
O Banco Central do Brasil divulgou nesta sexta-feira, 30, um relatório preocupante sobre as contas das empresas estatais federais. Segundo a autoridade monetária, essas empresas registraram um déficit de R$ 5,13 bilhões em 2025. Esse resultado negativo significa que os gastos totais das estatais superaram significativamente as receitas geradas ao longo do ano, criando um rombo que impacta diretamente as finanças públicas.
Contexto histórico e comparação com anos anteriores
Embora o déficit de 2025 seja alarmante, ele representa uma melhora parcial em relação ao ano anterior. Em 2024, as estatais federais haviam registrado um resultado ainda mais negativo, com um rombo recorde de R$ 6,73 bilhões. No entanto, o cenário atual contrasta drasticamente com períodos mais prósperos. O maior superávit da série histórica foi alcançado em 2019, quando as estatais apresentaram um saldo positivo impressionante de R$ 10,3 bilhões.
O déficit de 2025 se consolida como o segundo pior resultado desde o início da série histórica do Banco Central, que teve início em 2002. Essa classificação destaca a gravidade da situação atual e a necessidade de medidas corretivas urgentes.
Metodologia e empresas incluídas no cálculo
A série histórica do Banco Central, que abrange desde 2002, não considera empresas de grande porte como a Petrobras, a Eletrobras e os bancos públicos do setor financeiro. Essas exclusões foram formalizadas em 2009, mas a metodologia foi revisada para garantir consistência nos dados desde 2002.
As empresas que compõem esse cálculo incluem:
- Correios
- Emgepron
- Hemobrás
- Casa da Moeda
- Infraero
- Serpro
- Dataprev
- Emgea
É importante destacar que o Banco Central utiliza o conceito de variação da dívida em suas análises, uma metodologia amplamente aceita internacionalmente para avaliações fiscais. Esse método difere do conceito "acima da linha" adotado pelo governo federal, que calcula receitas menos despesas sem incluir os juros da dívida.
Impacto nas contas públicas e medidas governamentais
O resultado deficitário das estatais já está produzindo efeitos concretos nas contas públicas nacionais. Devido ao rombo que excedeu os limites autorizados, o governo federal foi obrigado a bloquear R$ 3 bilhões no orçamento de 2025. Esses recursos, que poderiam ser destinados a outras áreas prioritárias, ficaram retidos para cobrir parte do prejuízo das empresas estatais.
Crise nos Correios agrava situação
O resultado negativo de 2025 foi agravado significativamente pela situação crítica dos Correios, que enfrenta uma grave crise fiscal. A empresa, que detém monopólio sobre serviços postais como recebimento, transporte e entrega de correspondências, além da fabricação de selos, registrou um desempenho financeiro profundamente preocupante.
Em 2024, os Correios já haviam acumulado um déficit superior a R$ 2,5 bilhões. Nos primeiros nove meses de 2025, o prejuízo da empresa saltou para R$ 6 bilhões, com estimativas indicando que o resultado anual poderia chegar a R$ 10 bilhões – embora o número definitivo ainda não tenha sido divulgado oficialmente.
Para enfrentar essa crise, os Correios contrataram, em dezembro, um empréstimo de R$ 12 bilhões junto a instituições financeiras, com garantia do Tesouro Nacional. Esse recurso foi destinado ao pagamento de dívidas e ao alívio do caixa da empresa. Além disso, o presidente da estatal, Emmanoel Rondon, afirmou no final do ano passado que os Correios precisarão de mais R$ 8 bilhões em 2026 para enfrentar a crise financeira, recursos que poderão vir de novos aportes do Tesouro ou de outro empréstimo.
Em entrevista à GloboNews no ano passado, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, deixou claro que o governo atual não tem planos de privatizar os Correios, diferentemente da intenção do governo anterior. Haddad argumentou que é difícil para um Estado nacional abrir mão dos serviços postais, especialmente porque parte deles é subsidiada para garantir a universalização do acesso.
Problemas na Eletronuclear
Outra empresa que contribuiu para o cenário preocupante é a Eletronuclear, responsável pelas usinas nucleares brasileiras. A empresa informou que está operando com um "nível de caixa totalmente baixo", conforme declarou seu diretor-presidente interino, Alexandre Caporal, em entrevista ao g1 em dezembro.
Caporal alertou que a empresa só conseguirá honrar seus compromissos por um período limitado de dois a três meses. O principal problema identificado é a interrupção das obras da usina de Angra 3, que está drenando recursos públicos de forma significativa. Embora a estatal não pretenda solicitar aportes diretos do Tesouro Nacional, Caporal destacou a necessidade de que bancos públicos – que emprestaram quase R$ 7 bilhões à empresa – suspendam temporariamente a cobrança da dívida. Sem essa medida, ele alertou que a empresa vai "sangrar até morrer".
Posição do governo federal
Questionado pelo g1, o Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos, responsável pelas empresas estatais, apresentou dados que mostram algum crescimento positivo. Até o terceiro trimestre de 2025, as empresas estatais federais registraram um faturamento de R$ 1,02 trilhão, resultado 6,3% superior ao mesmo período de 2024.
A pasta também destacou que os investimentos realizados por essas companhias aumentaram pelo terceiro ano consecutivo. No acumulado até o terceiro trimestre de 2025, os investimentos somaram R$ 86,4 bilhões, representando um crescimento de 34,3% em relação ao mesmo período de 2024. Entre 2022 e 2024, os investimentos das estatais federais já haviam aumentado 87% em termos nominais.
No entanto, o ministério não comentou especificamente sobre os déficits registrados, focando sua resposta nos aspectos positivos do desempenho das empresas estatais.
O rombo bilionário das estatais federais continua a pressionar as contas públicas, desafiar o Orçamento federal e prejudicar investimentos em outras áreas prioritárias, criando um cenário fiscal complexo para os próximos anos.