Saturação do turismo no Brasil se intensifica sem investimentos estruturais, alerta especialista
O verão de 2026 tem sido marcado por um momento histórico para o turismo brasileiro, com o país registrando um recorde de quase 10 milhões de visitantes estrangeiros no ano anterior. Esse número representa quase o dobro do registrado em 2023, mas a crescente quantidade de turistas tem exposto desafios significativos relacionados à infraestrutura e ao meio ambiente em destinos populares.
O fenômeno do overtourism, que afeta cidades europeias e asiáticas, começa a se manifestar no Brasil, levantando preocupações sobre a sustentabilidade do setor.
Entrevista com Márcio Lacerda sobre os riscos do overtourism
Em entrevista exclusiva, Márcio Lacerda, CEO do Grupo Hotelaria Brasil e vice-presidente do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB), discute os impactos do turismo excessivo e a necessidade urgente de investimentos. Ele destaca que, embora o problema ainda esteja concentrado em alta temporada e locais específicos, a meta do Plano Nacional de Turismo de alcançar 10 milhões de turistas internacionais por ano exige ações imediatas.
Sem investimentos estruturais proporcionais, os sinais de saturação tendem a se intensificar, especialmente em destinos como Fernando de Noronha, Pipa, Porto de Galinhas, Ilhabela, Jericoacoara e Caraíva. Essas regiões já enfrentam pressões nos serviços públicos, incluindo falta de água, aumento de custos, impactos ambientais e conflitos com moradores locais.
Comparação com a Europa e destinos mais afetados
Lacerda explica que o Brasil ainda está longe dos níveis de excesso de turistas vivenciados em cidades europeias como Veneza, Paris e Barcelona, que recebem volumes anuais de visitantes muitas vezes superiores à sua população residente. No entanto, a diferença crucial reside na robustez da infraestrutura urbana, logística e turística dessas cidades, construída ao longo de décadas de investimentos.
No Brasil, destinos como ilhas e vilarejos com infraestrutura limitada são os mais vulneráveis. Balneários consolidados, como Porto de Galinhas e trechos do litoral paulista, têm melhor estrutura, mas sofrem com picos críticos durante feriados e o verão. Grandes cidades, como Rio de Janeiro e São Paulo, absorvem melhor o aumento de turistas, mas enfrentam riscos de concentração excessiva em poucos bairros, pressionando a mobilidade e a habitação.
Métodos para preservar destinos sem abrir mão dos visitantes
Para Lacerda, a preservação dos destinos não deve impedir a visitação, mas sim gerenciar melhor o fluxo interno à medida que o número de turistas aumenta. Ele propõe uma combinação de políticas públicas e ações coordenadas do setor privado para antecipar os impactos. Alguns mecanismos incluem:
- Definir limites diários ou anuais de visitantes em destinos sensíveis.
- Implementar cobrança de taxas ambientais.
- Promover atrativos alternativos e viagens fora da alta temporada.
- Reforçar códigos de conduta e punições para turistas que degradam o espaço visitado.
Sem planejamento e infraestrutura adequada, o país corre o risco de reproduzir problemas semelhantes aos observados na Europa, especialmente em destinos ambientalmente sensíveis. A solução, segundo Lacerda, está em agir proativamente para garantir que o crescimento do turismo seja sustentável e benéfico para todos.