Sarah Mullally é confirmada como a primeira mulher Arcebispa de Canterbury
Nesta quarta-feira, 28 de fevereiro, a Igreja da Inglaterra viveu um momento histórico com a confirmação de Sarah Mullally como a nova Arcebispa de Canterbury. Aos 63 anos, Mullally torna-se a primeira mulher a assumir este cargo de liderança espiritual, que é tradicionalmente visto como o principal posto da Comunhão Anglicana mundial.
Trajetória profissional e cerimônia de confirmação
Sarah Mullally possui uma trajetória profissional bastante diversificada. Antes de se tornar clériga, ela trabalhou como enfermeira oncológica, experiência que certamente influenciará sua abordagem pastoral. A confirmação oficial ocorreu através de uma cerimônia legal presidida por juízes, que validou sua nomeação anunciada há quase quatro meses.
Este serviço de Confirmação da Eleição representa um marco significativo para a Igreja da Inglaterra, instituição que ordenou suas primeiras mulheres sacerdotes em 1994 e sua primeira mulher bispa em 2015. A igreja tem suas origens no século 16, quando se separou da Igreja Católica Romana durante o reinado do rei Henrique VIII.
Significado histórico e reações especializadas
George Gross, especialista em teologia e monarquia no King's College London, destacou o contraste entre a Igreja da Inglaterra e a Igreja Católica, que proíbe a ordenação de mulheres como sacerdotes. "É um grande contraste", afirmou Gross. "E, em termos da posição das mulheres na sociedade, isso é uma grande declaração."
A nomeação de Mullally simboliza um afastamento contínuo em relação às tradições católicas e representa um avanço significativo na igualdade de gênero dentro das estruturas religiosas.
Desafios e divisões internas
Contudo, a nomeação de Mullally pode aprofundar divisões existentes dentro da Comunhão Anglicana, que conta com aproximadamente 100 milhões de membros em 165 países. A organização está profundamente dividida sobre temas sensíveis como o papel das mulheres na liderança religiosa e o tratamento de pessoas LGBTQ+.
A Gafcon, organização global de anglicanos conservadores, já manifestou sua oposição, afirmando que a nomeação é divisiva porque a maioria da Comunhão Anglicana ainda acredita que apenas homens devem ser bispos. O arcebispo de Ruanda, Laurent Mbanda, presidente do conselho de bispos seniores da Gafcon, criticou publicamente o apoio de Mullally à bênção de casamentos entre pessoas do mesmo sexo.
"Como a recém-nomeada arcebispa de Cantuária falhou em guardar a fé e é cúmplice na introdução de práticas e crenças que violam tanto o 'sentido claro e canônico' das Escrituras quanto a interpretação 'histórica e consensual da Igreja', ela não pode oferecer liderança à Comunhão Anglicana", declarou Mbanda em outubro.
Contexto da sucessão e próximos passos
Mullally substitui o ex-arcebispo Justin Welby, que anunciou sua renúncia em novembro de 2024 após ser criticado por não comunicar à polícia alegações de abuso físico e sexual cometidos por um voluntário em um acampamento de verão ligado à igreja. A nova arcebispa também herdará preocupações sobre a capacidade da Igreja da Inglaterra em eliminar completamente os escândalos de abuso sexual que a atingem há mais de uma década.
Sua indicação foi realizada por uma comissão de 17 membros composta por clérigos e leigos, com confirmação final do rei Charles III, governador supremo da igreja. No entanto, o processo de nomeação ainda não está completo.
Cerimônia de instalação e início do ministério
Em 25 de março, na Catedral de Canterbury, Sarah Mullally será formalmente instalada como bispa da diocese de Canterbury em uma cerimônia que marcará o início oficial de suas funções. Este evento representará a etapa final no longo processo de transição de liderança.
Após esta cerimônia, Mullally iniciará seu ministério público, enfrentando tanto os desafios internos da Comunhão Anglicana quanto as expectativas de uma sociedade que observa atentamente este momento histórico para a igualdade de gênero nas instituições religiosas.