Pajubá, dialeto criado por travestis na ditadura, é tema de documentário em Sorocaba
Amapô, aquendar, cacura, gongar, picumã. Essas palavras podem soar estranhas para muitos, mas fazem parte do pajubá, um dialeto ou socioleto desenvolvido e difundido pela comunidade LGBTQIA+, com especial protagonismo das travestis. Curiosamente, alguns termos desse vocabulário já transcenderam os limites do grupo e se incorporaram ao cotidiano brasileiro, sendo usados até por quem não integra a sigla, com significados que variam conforme o contexto.
Origem e significado do pajubá
O pajubá surgiu como uma linguagem cifrada durante a ditadura militar, nas décadas de 1960 e 1970, conforme explica Tiago Rodrigues, roteirista e designer do documentário "Para não dizer que eu não falei". "Era um código que só as travestis conseguiam entender para se comunicar e se proteger", destaca ele. A ativista Maria Kali Silva, de 30 anos, complementa que expressões como "arraso" e "babado" ganharam conotações específicas: "'Babado' no pajubá significa algo chocante, uma novidade ou fofoca, diferente do enfeite em roupas".
Raízes culturais e transformações
O dialeto mistura elementos do português, francês e idiomas africanos, como o iorubá, refletindo suas origens nos terreiros de candomblé. Maria Kali aponta que "o pajubá nasce da necessidade da comunidade trans negra no Brasil de se proteger", sendo usado para comunicação secreta, especialmente em contextos de prostituição, onde a incompreensão por parte de policiais ou clientes era crucial para evitar violência e prisões.
Assim como qualquer língua, o pajubá passa por constantes transformações, impulsionadas pelas redes sociais. Novos termos surgem e se incorporam ao dialeto, e sufixos como "íssimo" adaptam palavras, como em "ocoisíssime" para descrever um homem bonitíssimo. Além disso, o próprio nome do dialeto varia regionalmente, sendo conhecido como bajubá ou bate-bate em diferentes partes do Brasil.
Documentário e importância cultural
Para celebrar o Dia da Visibilidade Trans, o documentário foi gravado em Sorocaba, com cenas em praças, ruas e espaços privados, em uma produção que durou três meses e contou com a participação da Associação de Transgêneros de Sorocaba (ATS). Tiago ressalta que o filme busca "mostrar o pajubá como fenômeno cultural, sem tentar explicar todas as palavras, mas sim destacar sua relevância histórica".
Maria Kali enfatiza a importância de preservar essa memória: "Quando não se tem memória, se repete a velha história. Saber sobre o passado impede que ele se apague e lembra que o que hoje é divertido já foi fundamental para nossa sobrevivência". O documentário será exibido gratuitamente no Sesc Sorocaba, com legendas e Libras, promovendo acesso amplo ao público.
Reconhecimento como patrimônio
Em outubro do ano passado, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) protocolou, junto à deputada federal Erika Hilton (PSOL), uma solicitação para apresentar um projeto de lei que reconheça o pajubá como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, conforme parâmetros do Iphan. Essa iniciativa inédita visa assegurar ações de salvaguarda, documentação e fomento cultural, consolidando o dialeto como parte integrante do patrimônio brasileiro.