Cinco Lugares que Marcam a Memória Afetiva de Belo Horizonte
Lugares que Marcam a Memória de Belo Horizonte

Belo Horizonte é uma cidade construída não apenas por ruas e edifícios, mas também por lembranças que tecem sua história coletiva. Cinemas que reuniam famílias, lojas que ditavam tendências, lanchonetes que viraram ponto de encontro e casas noturnas que marcaram gerações ajudam a contar a trajetória da capital mineira, mesmo quando esses espaços já não existem mais fisicamente.

Cinco Pontos que Despertam Saudades em BH

Neste Dia da Saudade, celebrado nesta sexta-feira (30), é momento de reviver cinco locais emblemáticos de Belo Horizonte que deixaram marcas profundas na memória afetiva dos moradores. Esses lugares, apesar de desaparecidos, continuam a ecoar nas conversas e nas histórias contadas por quem viveu épocas douradas na cidade.

Cine Metrópole: Um Marco Arquitetônico e Cultural

O Cine Metrópole funcionou entre 1942 e 1983 no mesmo local onde antes existia o Theatro Municipal, inaugurado em 1906. No final dos anos 1930, o então prefeito Juscelino Kubitschek solicitou uma transformação radical: o estilo eclético da construção foi substituído pelo art déco, simbolizando luxo, modernidade e sofisticação.

Em 1983, após o anúncio da venda do cinema a um banco, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais determinou o tombamento provisório do prédio. A medida foi contestada pelos novos proprietários, levando o então governador Tancredo Neves a criar uma comissão que se posicionou contra o tombamento, alegando possível descaracterização interna. O imóvel acabou sendo demolido pouco tempo depois.

De acordo com a Prefeitura de Belo Horizonte, essa demolição motivou a criação de uma legislação municipal específica para a proteção do patrimônio cultural da cidade, um legado amargo de uma perda irreparável.

Largo do Rosário: Memória Negra Soterrada

O Largo do Rosário guarda a memória de uma capela do século XIX construída pela Irmandade do Rosário dos Homens Pretos. A capela original foi demolida pela Comissão Construtora da Nova Capital em 1897, mas uma segunda capela foi erguida. Em 1923, o bispo Dom Cabral proibiu as irmandades de celebrarem nas igrejas católicas, levando-as para as periferias.

Hoje, apesar de a festa do Rosário seguir sendo celebrada, as tradições dos congados e reinados, enraizadas na cultura de populações negras antes presentes no centro da capital, foram deslocadas para favelas e bairros periféricos. Esse processo é fruto de uma exclusão racial histórica que ainda ressoa.

Atualmente, uma placa na esquina da Rua dos Timbiras com Rua da Bahia informa sobre restos arqueológicos da capela que existiu ali, marcando a vida dos antigos moradores do extinto Arraial do Curral Del Rey.

O professor e padre Mauro Luiz da Silva, em pesquisas de pós-doutorado na Itália, reflete sobre essa saudade: “A saudade que eu sinto do Largo do Rosário não é de um lugar que eu vivi, mas de um lugar que eu imaginei a partir de fotos, documentos e livros. É a saudade de uma cidade mais democrática e inclusiva, que existiu, mas cuja memória foi soterrada”.

Mesbla: O Templo do Consumo

A Mesbla foi uma icônica rede de lojas de departamentos com forte presença em várias cidades brasileiras, incluindo Belo Horizonte, principalmente nas décadas de 1970 e 1980. Na capital mineira, o empreendimento ficava no cruzamento da Avenida Afonso Pena com a Rua Curitiba.

Conhecida por vender de tudo, desde roupas até carros, a loja era referência de consumo e um ponto de encontro no centro da cidade. A rede faliu em 1999 após crises financeiras, deixando um vazio no cenário comercial e afetivo de BH.

Olympia: A Boate que Revolucionou a Noite

A Boate Olympia foi um dos espaços culturais e noturnos mais emblemáticos de Belo Horizonte nos anos 1980. Considerada a maior casa de espetáculo de Minas Gerais e terceira do país, foi inaugurada em agosto de 1989 no Edifício JK, região central da capital.

Rapidamente se tornou um ponto de encontro da juventude e da cena artística da cidade. Instalada em um dos prédios mais icônicos de BH, projetado por Oscar Niemeyer, a Olympia ganhou destaque por reunir música, dança e performances, atraindo um público diverso ligado à cultura alternativa.

Apesar do sucesso e da relevância simbólica, a Boate Olympia teve vida curta, encerrando as atividades ainda no fim da década de 1980, mas deixando uma marca indelével na memória cultural de Belo Horizonte.

Doce Docê: O Sabor das Lembranças

A Doce Docê marcou época em Belo Horizonte entre as décadas de 1970 e 1990, consolidando-se como um dos endereços mais emblemáticos da cidade. Localizada na Avenida Afonso Pena, quase esquina com a Getúlio Vargas, a doceria ficou conhecida por popularizar a coxinha de frango com catupiry, combinação que virou referência para gerações de belo-horizontinos.

O espaço reunia famílias, amigos e frequentadores que circulavam pela região central, funcionando como ponto tradicional de encontro no ritmo intenso do Hipercentro.

O Legado Afetivo desses Lugares

Para a empresária e colecionadora Maria Elvira, todos esses locais marcaram de alguma forma a vida das pessoas que vivenciaram essa época. “Esses lugares eram muito mais do que prédios ou comércios. O Cine Metrópole, por exemplo, era um ponto chique no coração da cidade, e sua demolição foi um ato de violência contra a nossa história”, afirma.

Maria Elvira também lembra com saudosismo de outros locais icônicos de BH. “A Mesbla marcou uma geração como uma grande loja de departamentos, inovadora e símbolo de modernidade. Já espaços como o Doce Docê e o Saci faziam parte do imaginário afetivo da cidade, com sabores, encontros e experiências únicas. Eram lugares que atraíam pessoas de fora, criavam rituais e ajudavam a construir a identidade cultural e social de Belo Horizonte”.

Esses cinco pontos, embora desaparecidos, continuam a viver nas memórias e nas narrativas que compõem o tecido social de Belo Horizonte, lembrando-nos de que uma cidade é feita tanto de presente quanto de passado.