Geraldinho Nogueira: a trajetória do contador de causos que encantou o Brasil
Geraldo Policiano Nogueira, popularmente conhecido como Geraldinho Nogueira, é um nome indelével na cultura goiana. Homem humilde e de humor cativante, ele se tornou uma figura emblemática através de seus causos, histórias narradas com simplicidade e uma personalidade única. Natural de Bela Vista de Goiás, na Região Metropolitana de Goiânia, ele conquistou o país na década de 1980 com seu visual caipira, roupas simples, chapéu desgastado e cigarro de palha.
Origens humildes e infância marcada por dificuldades
A história de Geraldinho começou em 18 de dezembro de 1918, quando nasceu no povoado de Sussuapara, na Região do Aborrecido. O historiador e professor da Universidade Estadual de Goiás, Lucas Pires Ribeiro, dedicou-se a pesquisar a vida do contador de causos em sua tese de doutorado na Universidade Federal de Goiás. Em entrevista, o pesquisador revelou que seu objetivo foi documentar um lado pouco explorado da vida de Geraldinho: o período anterior à fama.
Para contar a trajetória do goiano que encantou o país, o historiador mergulhou em Bela Vista de Goiás, conversando com amigos e familiares. Filho de Benedito Policiano Nogueira e Bárbara Batista Carvalho, Geraldinho teve uma infância marcada por dificuldades materiais e familiares. De acordo com Lucas Ribeiro, o pai abandonou a família pouco após seu nascimento, obrigando o futuro contador de causos a trabalhar desde muito cedo.
Estamos falando de um contexto de extrema pobreza no meio rural goiano e de uma cultura fortemente patriarcal. A ausência da figura paterna teve implicações profundas na trajetória de vida do Geraldinho, explicou o historiador.
Geraldinho era analfabeto, uma realidade comum entre crianças do meio rural no início do século XX. Um dos filhos me disse algo que me marcou muito: que o pai não sabia nem assinar o próprio nome. Isso não significa falta de inteligência, mas revela uma trajetória marcada pela necessidade de trabalhar desde a infância, ressaltou Lucas Ribeiro.
Vida adulta e múltiplos talentos
Ao longo da juventude e vida adulta, Geraldinho exerceu diversos ofícios típicos da roça goiana, como lavrador, carreiro e, principalmente, carpinteiro. Ele era descrito como um carpinteiro de mão cheia, com habilidade excepcional para trabalhar a madeira. O contador se casou duas vezes: primeiro em 1936, com Sebastiana Oliveira Nascimento, conhecida como Dona Nica, com quem teve quatro filhos. A relação foi marcada por tragédias familiares, incluindo a morte da esposa e de filhos ainda jovens.
Esse é um aspecto pouco lembrado, porque a memória coletiva tende a preservar a imagem do Geraldinho alegre, engraçado por natureza, mas a vida dele foi atravessada por dramas profundos, observou Lucas Ribeiro.
Após ficar viúvo, ele se casou novamente em meados da década de 1940, com Joana Bonifácio, a Dona Pretinha, figura marcante na memória da comunidade. Com ela, teve sete filhos. Durante grande parte da vida, o goiano viveu como agregado em fazendas da região, condição marcada por trabalho precário e dependência dos grandes proprietários rurais. Somente no início da década de 1970, ele conseguiu adquirir uma pequena propriedade, com pouco mais de sete alqueires, na Região do Nuelo.
A ascensão como contador de causos
Segundo o historiador Lucas Ribeiro, antes dos causos de Geraldinho ficarem famosos na televisão, eles já circulavam oralmente na comunidade. Para as pessoas da região, não eram 'causos', eram as 'patacoadas do Geraldinho'. Ele cresceu em um ambiente de valorização das histórias orais, dos contos e das anedotas, relatou.
Embora seja amplamente conhecido como contador de causos, Geraldinho teve uma atuação cultural muito mais ampla. As pessoas tinham dificuldade de vê-lo apenas como contador de causos. Ele também era folião, mestre de catira, cantor, compositor e tocador de viola de primeiríssima qualidade, disse Lucas.
De acordo com o historiador e professor da Universidade Estadual de Goiás, Eliézer Cardoso de Oliveira, era comum a figura do chamado mentiroso no interior goiano, termo usado para designar pessoas que divertiam os outros com narrativas ficcionais. Ele relatou que Geraldinho costumava narrar seus causos em bares e pousos de folia, conquistando o público pela forma despojada e bem-humorada de contar histórias.
O professor destacou que algumas histórias eram narradas em primeira pessoa, enquanto outras tinham personagens fictícios. No causo da Bicicleta, da Namoradinha ou do Rádio, ele se coloca como personagem. Já em outros, como o do Peão de Estribo ou do Moribundo, os protagonistas são figuras aleatórias, disse.
Para ele, embora possam ter elementos do cotidiano, os causos são essencialmente ficcionais e exagerados, construídos para provocar riso. Eliézer também analisou os fatores que contribuíram para a popularidade de Geraldinho, relacionando o sucesso ao fortalecimento da música sertaneja a partir do fim da década de 1980 e às transformações culturais vividas pelo país. Esse período marca uma valorização do popular e do tradicional, afirmou.
Reconhecimento nacional e legado duradouro
A entrada de Geraldinho no meio midiático ocorreu em 1984, após ser descoberto pelo produtor e apresentador Hamilton Carneiro. Em entrevista, o criador do programa Frutos da Terra contou como iniciou sua história com o contador de causos. Hamilton relembrou que estava em uma fazenda no município de Bela Vista de Goiás em 1983, quando ouviu falar de um contador de piadas interessantes.
No dia seguinte, ele acordou cedo e, ao sair de casa, encontrou Geraldinho sentado em um monte de lenha, enrolando um cigarro de palha. Ao cumprimentá-lo, o apresentador percebeu imediatamente que se tratava de alguém especial. A hora que ele respondeu, eu já falei: 'Olha, é um tipo diferente', recordou, destacando a voz grave, o sorriso e o jeito marcante do contador de causos.
Durante a conversa, Geraldinho contou o famoso causo da bicicleta, mas o apresentador explicou que a história era longa demais para a televisão. Por isso, Hamilton trabalhou o texto e o reduziu, buscando respeitar a oralidade e o vocabulário do contador. A partir daí, surgiu uma parceria. Hamilton explicou que, como Geraldinho era analfabeto, muitas vezes o apresentador era quem escrevia os causos. A filha de Geraldinho lia os textos, e ele os decorava com facilidade. Ele não sabia escrever, mas tinha uma cabeça impressionante, afirmou.
Essa parceria resultou nas primeiras manifestações públicas do personagem, começando pelas propagandas da Caixego, antiga Caixa Econômica Federal, a partir da virada de 1983 para 1984. Hamilton explicou que os textos tinham metáforas políticas sutis, mas sempre dentro da linguagem simples e popular do personagem. Com o sucesso, o apresentador escreveu o espetáculo Trova, Prosa e Viola, no qual ele fazia as trovas, Geraldinho a prosa, e a dupla André e Andrade tocava a viola.
Morte e preservação da memória
Geraldo Policiano Nogueira morreu em 1993, vítima de trombose intestinal, deixando um legado que, segundo o historiador Lucas Ribeiro, vai muito além do humor. Ele foi um grande narrador artesanal, representante de uma cultura popular rica, que merece ser estudada, preservada e divulgada, afirmou.
Atualmente, Geraldinho é homenageado com uma estátua no meio de sua cidade natal. A sede da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Bela Vista de Goiás também carrega um pouco da história desse personagem emblemático. No local, estão um retrato do contador de causos, roupas, um par de botas, chapéu e um violão.
Para nós, é uma honra. Um orgulho. Ele levou o nome da nossa cidade para o Brasil, destacou o secretário de cultura da cidade, Maycon Alves de Carvalho.
A memória do contador de causos ganhou um novo formato por meio de uma animação exibida no programa Frutos da Terra. Hamilton Carneiro explicou que a ideia surgiu para preservar a obra de Geraldinho e apresentá-la às novas gerações. Ao todo, a série prevê 32 episódios e conta com um dublador com uma voz idêntica ao personagem, para manter a entonação e o estilo original. Segundo o apresentador, a animação revitaliza a memória e ajuda a manter viva a história de Geraldinho para quem ainda não o conhece.