Escritora amapaense vence Oscar Literário com poema sobre mulheres sem água
Amapaense vence Oscar Literário com poema sobre mulheres sem água

Escritora amapaense conquista Oscar Literário com poema sobre realidade das mulheres ribeirinhas

A escritora amapaense Girlene Chucre alcançou um feito notável ao vencer o Oscar Literário, realizado neste mês em Olinda, Pernambuco. Ela foi premiada na categoria Melhor Poesia Nacional com a obra “Lata d’água”, um poema que mergulha no drama vivido por mulheres ribeirinhas da Amazônia que não têm acesso à água potável em suas comunidades.

Inspiração na memória familiar e realidade social

A criação do poema nasceu de uma memória pessoal profunda da autora. Durante anos, sua mãe precisou carregar latas pesadas de água para abastecer a casa e realizar as tarefas domésticas diárias. Essa rotina exaustiva, marcada por um esforço físico intenso, ainda é uma realidade para muitas mulheres em comunidades remotas, que acordam de madrugada para buscar água.

Em vez de simplesmente abrir uma torneira, essas mulheres precisam coletar e transportar o líquido em recipientes pesados, enfrentando desafios logísticos e de saúde. Girlene Chucre participa do projeto “Mulheres do Saneamento e Saúde Ambiental no Meio do Mundo”, onde pôde observar de perto essa situação crítica.

Denúncia social através da poesia

Segundo a escritora, a iniciativa tem um caráter social claro e busca dar voz às mulheres que vivem sem água potável e saneamento básico adequado. “Eu me inspirei na vivência dessas mulheres. Quando levamos essa realidade para outros Estados, estamos fazendo uma denúncia social”, afirmou Chucre.

A autora destaca que, além da escassez de água, a falta de saneamento reforça o peso do trabalho braçal imposto às mulheres, perpetuando desigualdades históricas. Um dos versos de “Lata d’água” traduz essa rotina árdua de forma impactante:

Quem disse que a Maria não cansa. Cansa sim! Ela cansa, entristece, Envelhece, Adoece e falece.

Reflexão sobre o papel da mulher e direitos humanos

Para Chucre, o poema também reflete o papel histórico da mulher como cuidadora na sociedade. “Na sociedade patriarcal, a mulher sempre foi vista como responsável pelo lar. No século XXI, isso ainda persiste. Nosso projeto traz essa menção, mas fala sobretudo da saúde e do direito humano dessas famílias terem água potável”, disse.

Ela ressalta que, embora políticas públicas ligadas ao saneamento tenham avançado nos últimos anos, ainda há muito a ser feito para torná-las mais efetivas. “Existe a lei que prevê a universalização do saneamento. Cada domicílio ocupado tem esse direito. Precisamos desse trabalho aqui no Amapá, principalmente nas comunidades quilombolas, ribeirinhas, assentadas e extrativistas”, completou.

Concorrência e reconhecimento literário

O prêmio Oscar Literário, organizado pela Editora Compose de Recife, contou com a participação de mais de 60 obras, tornando a vitória de Girlene Chucre ainda mais significativa. Sua conquista não apenas celebra o talento literário, mas também coloca em evidência uma questão social urgente que afeta milhares de brasileiros.

Através de “Lata d’água”, a escritora amapaense consegue unir arte e ativismo, usando a poesia como ferramenta para conscientizar sobre a importância do acesso à água e saneamento, direitos fundamentais que ainda são negados a muitas comunidades na região amazônica.