Danielle Winits encarna catadora em monólogo 'Choque!' e fura bolhas na carreira
Winits em monólogo 'Choque!' como catadora que busca ETs

As modelos glamourosas que Danielle Winits interpretou em produções da Globo, como "Sex Appeal" e "Corpo Dourado", dificilmente se sentiriam à vontade em um lixão a céu aberto. No entanto, é exatamente nesse cenário desolador que sua nova protagonista, uma catadora que acredita em extraterrestres, se encontra atualmente. Em "Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente", espetáculo em cartaz no Teatro Faap, em São Paulo, Winits desafia expectativas e mergulha em um papel radicalmente distante de seus anteriores.

Uma personagem que fura bolhas

"Estou sempre buscando personagens que talvez as pessoas não esperem de mim", afirma a atriz, que se firmou na televisão com mulheres obcecadas pela beleza e pela utilização da sensualidade como ferramenta de conquista. Com cabelo desarrumado e sem maquiagem, Trudy, sua personagem, vaga por um verdadeiro fim de mundo, repleto de restos de comida, latas amassadas e sacolas de lixo enormes. Esses elementos representam os resquícios de uma sociedade que abusou das técnicas de produção em massa.

"Sinto que, hoje, furar bolhas é uma tarefa necessária para o feminino e para aqueles que procuram um lugar distante do que os outros desejam que você ocupe", reflete Winits. Distante da vida materialista moderna, Trudy devaneia e esconjura a rotina que deixou para trás – anteriormente, ela era consultora criativa em uma empresa de marketing.

Primeiro monólogo e coprodução

Este projeto marca o primeiro monólogo da carreira de Danielle Winits, embora outros seres apareçam ocasionalmente durante a peça. Como coprodutora nos bastidores, a artista sequer tem tempo para sentir a solidão desse universo em palco. "A recepção que tivemos no Rio de Janeiro, onde a peça foi apresentada no ano passado, foi incrível, mas estou longe de estar com a luta ganha", comenta.

"Sou coprodutora há anos, mas quis vir com um pé a mais na porta porque sempre sobra espaço para o preconceito", afirma Winits, referindo-se à vigilância constante das redes sociais. A atriz é dona de sua própria produtora, a Winits Produções Artísticas, que já realizou peças como "Amo-Te", em 2006, e recentes musicais como "O Mágico de Oz" e "Meninas Malvadas".

Direção provocadora de Gerald Thomas

Gerald Thomas, diretor da peça, é tão célebre pelo radicalismo de seu trabalho teatral nas últimas décadas quanto pelas polêmicas em que se envolveu. Em 2003, por exemplo, agitou o Theatro Municipal do Rio de Janeiro após mostrar a bunda e simular uma masturbação diante da plateia que vaiava sua montagem da ópera "Tristão e Isolda". O caso foi parar na Justiça, sob acusação de ato obsceno, e ele foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal.

"Gerald é um artista provocador, que sempre povoou meu imaginário. Ele tem uma habilidade enorme de desmembrar o que é feito para ser belo o tempo todo", diz Winits. Para ela, trabalhar com Thomas foi a realização de um sonho. O dramaturgo, por sua vez, afirma que não conhecia a atriz antes do convite, mas se impressionou com cenas curtas, eróticas e intensas que viu na internet.

Atualização de texto clássico

Inspirado em um texto da americana Jane Wagner, de 1985, o espetáculo "Choque!" atualiza a obra e condensa as várias personagens do original em uma só figura que contesta os desdobramentos do capitalismo. A peça preserva referências a nomes como Andy Warhol, com quadros que surgem no palco e tensionam os limites entre arte e bens de consumo.

Além disso, a produção zomba de influenciadores e plataformas digitais, como o Instagram, e abusa de efeitos de luz, canções e outros estímulos que satirizam a hiperconexão contemporânea. Os ETs que Trudy insiste serem reais – sugeridos no palco por roupas gigantes que pendem do teto – não são tão diferentes dos usuários que mantêm a relevância de celebridades no plano real.

Crítica à era digital

Gerald Thomas compara o Speaker's Corner, espaço em Londres onde cidadãos podem discursar livremente, com a lógica dos debates online. "De tarde, você vê muitas pessoas ao lado umas das outras, discursando em várias línguas, pregando e vomitando verdades diferentes. Nada mais são do que um bando de malucos, cada um com a sua verdade. A internet é exatamente assim", afirma o dramaturgo, de sua residência em Nova York.

"A igreja é assim, o teatro é assim, a academia é assim, o mundo inteiro é assim desde sempre e nada mudou. Mas, hoje, há uma sede enorme de falar e pular para fora das telas de monitores e celulares, de convencer o outro de algo, mesmo que o próximo post vá contradizer absolutamente tudo que foi dito", complementa.

Processo criativo e dualidades

Enquanto Thomas acompanha a temporada em São Paulo virtualmente, através de seu assistente Osni Silva, Winits destaca o contraste presente na peça. "O Gerald é uma verdadeira entidade. Estou acostumada com espetáculos com equipes muito grandes, mas durante esse meu primeiro solo eu nunca me senti só", revela.

A atriz descreve uma dualidade que sintetiza dramas de toda a humanidade em uma só personagem, mobilizando um espaço cênico rico em detalhes. Thomas explica que esse tipo de abordagem pode encantar os mais jovens e desagradar veteranos, como sua amiga Fernanda Montenegro, habituada a produções mais intimistas.

Reflexões pessoais e políticas

Danielle Winits reflete sobre sua própria trajetória e transformação. "Já fui uma mulher de excessos. Eu tinha peito, mas botei um pouco mais. Nessa profissão, cada dia é diferente e vivo em eterna construção de mim mesma", compartilha. Para ela, a produção independente permite dizer o que realmente quer falar, tornando os projetos mais genuínos e políticos.

"Não posso entrar numa zona de conforto, porque muitos dos avanços que acontecem hoje se dão na oratória, mas não nas atitudes", afirma Winits. "Minha marcha não possui linha de chegada, mas devo mostrar para outras mulheres que ela perseverá."

Gerald Thomas, por sua vez, defende que o choque humano jamais será banalizado, citando episódios recentes de violência em Minneapolis, nos Estados Unidos. "Não há metáfora. Eles estão construindo o quarto Reich dentro da sua própria casa", declara.

Informações práticas

"Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente" está em cartaz no Teatro Faap, localizado na Rua Alagoas, 903, em São Paulo. As apresentações ocorrem às sextas e sábados, às 20h, e aos domingos, às 17h, até o dia 29 de março. Os ingressos custam R$ 160 e podem ser adquiridos no site teatrofaap.showare.com.br. A classificação etária é de 12 anos.