Orelhão escondido em distrito se torna último sobrevivente em Campo Grande
Enquanto os tradicionais orelhões desaparecem gradualmente das ruas brasileiras, um exemplar resiste de maneira peculiar na região de Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul. Localizado a aproximadamente quarenta quilômetros do centro urbano, o único aparelho ativo da cidade encontra-se escondido no distrito de Rochedinho, carregando consigo mais de três décadas de história e memórias.
Adaptação e funcionamento gratuito em local estratégico
O orelhão de Rochedinho passou por uma interessante transformação ao longo dos anos. Dentro da clássica estrutura metálica, foi instalado um telefone semelhante aos modelos residenciais, eliminando a necessidade de fichas ou cartões para realizar ligações. As chamadas locais e nacionais tornaram-se completamente gratuitas, um diferencial significativo em comparação com os sistemas originais.
Embora não se saiba exatamente quando o aparelho foi instalado no distrito, sua localização é considerada estratégica. O telefone público está posicionado em frente a uma Unidade de Saúde da Família e aos Correios, bem na entrada do povoado, facilitando o acesso para os moradores da região.
Maria das Dores: a guardiã dedicada do orelhão
A história do orelhão em Rochedinho está intimamente ligada à vida de Maria das Dores de Lima, funcionária dos Correios há mais de trinta anos. Durante esse período, ela naturalmente assumiu o papel de "dona" e guardiã do aparelho, organizando seu uso e controlando as ligações realizadas.
Maria recorda com detalhes como o sistema funcionava antigamente: "O pessoal vinha fazer ligação e era cobrado. Tinha uma taxa, aí a gente marcava os horários, os minutos, os segundos, tudo certinho. Depois, a cobrança chegava para os moradores". Em seus melhores dias, o orelhão chegava a formar filas diárias de pessoas aguardando para fazer suas chamadas.
Das encomendas aos recados: um centro de comunicação
Além de gerenciar as ligações telefônicas, Maria desempenhava um papel fundamental como intermediária de comunicação na comunidade. Muitas vezes, pessoas ligavam para o orelhão buscando por moradores do distrito, e ela diligentemente anotava e entregava os recados. "Quando a pessoa morava em alguma fazenda e a gente anotava os recados, porque eles não conseguiam vir aqui sempre", explica.
Em Rochedinho, uma comunidade com pouco mais de mil habitantes onde todos se conhecem, Maria garantia que nenhuma mensagem ficasse sem entrega. Sua dedicação transformou o simples orelhão em um verdadeiro centro de comunicação comunitária.
Extinção programada e cenário nacional
Segundo determinação da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), os orelhões começaram a desaparecer das ruas brasileiras a partir de janeiro de 2026. Em Mato Grosso do Sul, existem atualmente 107 aparelhos registrados, mas apenas 58 ainda permanecem funcionais.
A extinção não será imediata em todos os locais. O processo começou com a remoção em massa de carcaças e aparelhos desativados. Os orelhões só serão mantidos em cidades onde não há rede de celular disponível, e apenas até 2028, conforme as regulamentações vigentes.
Design icônico e legado histórico
O orelhão brasileiro surgiu em 1971, criado pela talentosa arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira. Inicialmente batizados com nomes como Chu I e Tulipa, esses aparelhos se diferenciaram das cabines telefônicas de outros países por seu design único e funcional.
O formato característico não era apenas estético: tinha uma justificativa funcional relacionada à qualidade acústica. O som entrava na cabine e era projetado para fora, diminuindo significativamente o ruído durante as ligações e protegendo quem falava do barulho externo. Este design brasileiro foi tão bem-sucedido que acabou reproduzido em diversos países, incluindo Peru, Angola, Moçambique e China.
Memória viva em tempos digitais
Hoje, com o avanço massivo dos celulares e da tecnologia móvel, o orelhão de Rochedinho quase não toca mais. O que permanece vivo é a memória afetiva e a história da guardiã Maria das Dores com um objeto que gradualmente se transforma em saudade. Enquanto o Brasil se prepara para dizer adeus definitivo a esses ícones da comunicação pública, exemplares como o de Rochedinho nos lembram de uma época onde a conexão humana dependia de pontos fixos e da mediação comunitária.