Médico de 80 anos transforma fotografia de aves em terapia e registra espécies ameaçadas
Médico de 80 anos usa fotografia de aves como terapia e registra espécies

Médico dermatologista encontra na fotografia de aves uma terapia contra o estresse

Em busca de uma atividade que proporcionasse distração da rotina intensa, o médico dermatologista Antonio Hiroshi Saito, de Presidente Prudente, no interior de São Paulo, descobriu na fotografia uma forma singular de descansar a mente. Aos 80 anos, ele iniciou essa prática em 2016, como uma alternativa ao hobby da pesca, que já não o satisfazia completamente.

Antonio relembra com entusiasmo como a ideia surgiu: "Minha grande paixão era jogar futebol, mas com a idade, as pernas ficaram cansadas. Resolvi então pescar, e levava as câmeras para fotografar as aves durante as saídas." Com o tempo, o médico acabou enjoando da pesca e, principalmente, da exposição ao sol, o que o levou a se dedicar exclusivamente à fotografia de aves. "Virou mania, paixão. Para mim foi uma descoberta, uma nova fonte de prazer, uma ótima terapia contra o stress", afirma.

Birdwatching: uma prática que promove bem-estar e movimenta economias

Segundo Antonio Hiroshi Saito, o hábito de observar aves, conhecido como birdwatching, tem origem na Inglaterra e foi popularizado nos Estados Unidos. "Nos EUA, cerca de um terço da população curte esse hobby, o que equivale a aproximadamente 90 milhões de pessoas, movimentando cerca de 40 bilhões de dólares na economia", explica o médico. Ele destaca que, enquanto nos Estados Unidos grande parte dos praticantes apenas observa, no Brasil a prática ainda não é tão comum, muitas vezes vista como uma atividade que requer equipamentos caros.

Estudos reforçam os benefícios dessa prática: uma pesquisa realizada pela Universidade de Exeter, na Inglaterra, indica que pessoas que vivem em áreas com maior diversidade de aves ou que praticam a observação de aves apresentam níveis mais elevados de felicidade, além de redução nos índices de ansiedade e estresse.

Investimento e paixão: R$ 50 mil em equipamentos e registros por todo o Brasil

O médico já investiu cerca de R$ 50 mil em equipamentos para a fotografia observativa, comparando a preparação para as saídas com a pescaria. "As tralhas, ao invés das varas e anzóis, temos as câmeras", brinca. Ao longo dos últimos 10 anos, Antonio perdeu as contas de quantas aves conseguiu registrar, mas guarda memórias especiais de viagens pelo Brasil.

Ele já fotografou em destinos como:

  • Bonito, onde registrou a Arara-azul
  • Chapada dos Veadeiros
  • Jalapão
  • Lençóis Maranhenses

Registros de espécies ameaçadas e momentos únicos

Um dos maiores achados de Antonio ocorreu em Fernando de Noronha, onde fotografou as duas únicas aves nativas do local, ambas em risco de extinção: o Sebito de Noronha (Vireo gracilirostris) e a Cocoruta (Elaenia ridleyana). Embora não saiba em quais dispositivos essas fotos estão armazenadas, a lembrança do momento permanece viva.

Entre os registros mais recentes, destaca-se a ave Cardeal-do-banhado, fotografada na foz do Rio do Peixe, em Caiuá. "Uma ave lindíssima", descreve o médico. Na região de Presidente Prudente, ele também faz registros em Teodoro Sampaio, durante passeios pelo Rio Paranapanema, margeando a reserva do Morro do Diabo. "Ali tem aves, mas o prazer maior é contemplar as lagoas que existem ali, são de tirar o fôlego de tanta beleza".

Além das aves: conexões humanas e cultura local

Além do prazer contemplativo, Antonio coleciona momentos vividos com moradores locais das cidades que visita. Em Teodoro Sampaio, por exemplo, contrata o guia João Piloteiro, que também é violeiro. "Quando não tem aves, ele faz um recital da mais pura música caipira", relata o médico, mostrando como a prática do birdwatching vai além da observação, integrando-se à cultura e às relações humanas.

Para Antonio Hiroshi Saito, a fotografia de aves se tornou mais do que um hobby: é uma terapia, uma paixão e uma forma de contribuir para o registro de espécies ameaçadas, unindo bem-estar pessoal à conservação ambiental.