Mulher relata caso de intolerância religiosa após motorista recusar corrida em São Vicente
Uma mulher de 27 anos, Barbara Emanuelle da Silva Alves Ferreira, alega ter sofrido intolerância religiosa após ter uma corrida de aplicativo negada ao sair de um terreiro de candomblé em São Vicente, no litoral paulista. O episódio ocorreu na noite de sexta-feira (3), no bairro Jardim Rio Branco, e deixou a vítima profundamente abalada.
O relato da vítima: discriminação explícita
De acordo com Barbara, ela solicitou uma corrida pelo aplicativo Uber para retornar à sua residência após participar de cerimônias religiosas. A mulher estava acompanhada de seus dois filhos: um menino de 7 anos e uma menina de 3 anos, que dormia em seu colo. "Quando vi que o motorista estava chegando, peguei minha filha no colo, segurei meu outro filho e fui para a calçada com as bolsas para aguardar", descreveu ela.
No entanto, o que se seguiu foi um ato de discriminação explícita. "Ele simplesmente olhou e logo após acelerou o carro, indo embora sem ao menos parar. Logo depois, cancelou a corrida, sem falar absolutamente nada, sem dar nenhuma explicação", lamentou Barbara. A vítima acredita que o motorista agiu dessa forma ao visualizá-la vestindo as roupas características da religião de matriz africana.
Impacto emocional e vulnerabilidade
A situação deixou Barbara extremamente abalada, tanto pelo desrespeito quanto pelas circunstâncias vulneráveis em que se encontrava. "Me senti extremamente desrespeitada, humilhada e indignada. Eu estava com duas crianças, à noite, carregando uma no colo, e fui simplesmente ignorada bruscamente daquele jeito", afirmou. Ela precisou aguardar um tempo para se recompor antes de solicitar outra corrida, enquanto a primeira viagem, já paga através de cartão de débito, teve o valor estornado.
Barbara destacou que este não é um caso isolado em sua experiência. "O que mais dói é saber que isso não é um caso isolado, pois não é a primeira vez que passo por esse tipo de situação, o que mostra o quanto a intolerância religiosa ainda é real, principalmente com quem é de religião de matriz africana", ressaltou.
Posicionamento da Uber e medidas tomadas
Após o ocorrido, Barbara denunciou o caso diretamente ao aplicativo da Uber. A empresa respondeu afirmando que o episódio foi "inaceitável" e que medidas seriam tomadas em relação ao motorista envolvido. Como parte da resposta, a Uber ofereceu à vítima quatro horas de sessões de atendimento psicológico.
Em nota oficial, a empresa de mobilidade declarou: "A Uber informa que não tolera qualquer forma de discriminação e, em casos dessa natureza, encoraja a denúncia tanto no próprio aplicativo quanto às autoridades competentes". A plataforma ainda reafirmou seu compromisso com respeito, igualdade e inclusão, mencionando iniciativas educativas regulares para motoristas parceiros sobre racismo e discriminação.
Entre as ações citadas pela empresa estão:
- Materiais educativos e de conscientização enviados constantemente aos motoristas
- Episódios sobre intolerância religiosa no programa "Fala Parceiro!" do Uber Cast
- Pílulas educativas na Rádio Uber, programa diário da Rádio Transamérica
- Acordo de Cooperação Técnica com o Ministério da Igualdade Racial através da Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia
Contexto social e importância do caso
Este incidente ocorre em um momento de crescente discussão sobre direitos religiosos e combate à discriminação no Brasil. Casos como o de Barbara evidenciam como práticas de intolerância continuam presentes no cotidiano, afetando especialmente praticantes de religiões de matriz africana. A vulnerabilidade da situação – uma mulher com duas crianças pequenas, à noite – agrava ainda mais a gravidade do ocorrido.
Até a publicação desta reportagem, o g1 não havia conseguido localizar o motorista envolvido para ouvir sua versão dos fatos. A Uber colocou-se à disposição para colaborar com investigações, conforme estabelecido pela legislação vigente.



