Dívidas quitadas do Will Bank reaparecem como pendentes no BRB após processo de liquidação
Clientes que contrataram empréstimos ou outros serviços financeiros no Will Bank estão enfrentando um problema grave: mesmo após quitarem seus débitos, passaram a constar como devedores do BRB (Banco de Brasília). A situação foi antecipada pelo jornal O Globo e confirmada pela Folha de S.Paulo, gerando preocupação entre consumidores que veem seus nomes vinculados a dívidas que já consideravam encerradas.
Falha no sistema financeiro afeta acesso a crédito
Os registros incorretos aparecem no SCR (Sistema de Informações de Crédito), do Banco Central, acessado pelos consumidores por meio da plataforma Registrato. Relatos indicam que clientes passaram a ter dívidas sinalizadas como ativas ou em atraso, com valores que continuam sendo atualizados com juros, apesar de afirmarem não ter pendências com o banco estatal. Essa inconsistência tem impactado diretamente a vida financeira dos afetados, dificultando ou impedindo o acesso a novos créditos e serviços bancários.
Casos emblemáticos de consumidores prejudicados
Entre os afetados está a trabalhadora rural Derlane Hermisdolffe, 34 anos, residente em Água Doce do Norte (ES). Ela renegociou uma dívida de cartão com o Will Bank depois que o valor devido cresceu e chegou a cerca de R$ 10 mil. O débito foi quitado à vista por R$ 1.695,13. Segundo relata, após o pagamento do montante acordado, encerrou a conta na instituição financeira. Ainda assim, passou a constar no Registrato como devedora do BRB no último mês, com um débito que já ultrapassa R$ 50 mil.
Derlane afirma não ter condições de arcar com advogados e diz que entrou em contato com o BRB, que lhe informou um prazo até 11 de fevereiro para análise do caso. Até lá, o suposto valor devido ao banco segue aumentando, agravando sua situação financeira.
Outro caso é o da assistente de logística Lavínia Machado, 28 anos. Ela descobriu a suposta dívida depois de ter um financiamento imobiliário negado, após surgir uma restrição em seu CPF vinculada ao BRB. "Fiquei muito preocupada porque nunca tive dívidas no SPC ou Serasa", afirma. Ao acessar o Registrato, encontrou o registro de uma dívida de R$ 3.377 atribuída ao banco estatal.
Lavínia diz que, ao entrar em contato com o BRB, foi informada de que a instituição comprou parte da carteira do Will Bank e que os valores pagos pelos clientes não estariam sendo repassados. "Mesmo sem faturas vencidas, a restrição ficou no meu CPF", relata. Ela afirma ainda que o banco prometeu resolver o problema em até sete dias úteis, o que não ocorreu, e que já recorreu à Justiça.
Já Laís Rocha, 21 anos, mantinha em dia um parcelamento de fatura de cartão no Will Bank, mas viu seu score de crédito cair após surgir uma dívida vencida vinculada ao Banco de Brasília. As parcelas, segundo ela, são de R$ 100, mas o valor apontado como devido ao banco estatal já ultrapassa R$ 1.000. Laís diz que, no aplicativo do Will Bank, nunca recebeu mensagens de atraso ou cobrança de juros e pretende continuar pagando as quatro parcelas restantes, aguardando um retorno do BRB sobre o protocolo aberto.
Posicionamento do BRB e explicação técnica
Em nota, o BRB afirma que, após a liquidação do Will Bank, deixou de receber do liquidante as informações necessárias sobre o repasse e a quitação das operações de crédito cedidas. "Pelas regras contratuais, o banco que originou os créditos deve acompanhar os pagamentos e, na sequência, fazer o envio dos dados e dos valores correspondentes ao BRB", diz o banco estatal.
Segundo o BRB, após a liquidação, o fluxo de informações não foi retomado pelo liquidante, o que impede a baixa de algumas operações. Com isso, contratos já quitados no banco de origem passaram a aparecer como ativos ou inadimplentes no SCR. "[O banco] está preparado para realizar a correção imediata dos dados assim que houver retorno do administrador do banco em liquidação", completa a instituição.
Reclamações se multiplicam e especialista orienta
No portal Reclame Aqui, o BRB já acumula dezenas de reclamações relacionadas a registros de dívidas atribuídas ao banco. Um dos comentários registrados na plataforma diz: "No meu relatório no Registrato está constando uma conta vencida no valor de R$ 1.124 que acredito que está atrapalhando meu acesso a crédito. Mas eu nunca tive conta nesse banco, as duas dívidas que eu tinha já foram quitadas e saíram do Serasa".
Segundo o advogado Jorge Calazans, especialista na defesa de vítimas de fraudes financeiras, em processos de liquidação extrajudicial, especialmente quando há interrupção abrupta das operações e migração de bases de dados, são relativamente comuns falhas de reporte e inconsistências cadastrais. No caso do Will Bank, ele afirma que houve um volume considerado anormal de reclamações envolvendo cobranças indevidas, com reaparecimento de obrigações já quitadas.
Calazans explica que, após a decretação da liquidação, a responsabilidade pela correção das inconsistências cadastrais passa ao liquidante nomeado pelo Banco Central, que administra a massa liquidanda. Ainda assim, segundo ele, pode haver corresponsabilidade técnica do banco que adquiriu a carteira (neste caso o BRB), a depender do papel desempenhado no processamento e no envio das informações.
O que fazer ao descobrir a dívida indevida?
O especialista orienta que o primeiro passo é buscar a via administrativa, com contato direto com o canal oficial da liquidação para solicitar a correção formal dos dados, além do registro de reclamação no Procon. Ele também recomenda acionar o Banco Central para contestar informações lançadas no Registrato.
Caso a irregularidade persista ou haja urgência na liberação do crédito, ele afirma que é possível recorrer à via judicial para obter a exclusão do apontamento indevido, inclusive por meio de tutela de urgência, além de eventual indenização. Calazans destaca que o consumidor tem direito à correção imediata de informações falsas ou imprecisas.
"Além disso, é juridicamente possível pleitear indenização por danos morais e materiais, já que a restrição indevida no sistema financeiro impacta diretamente a vida econômica do cidadão, dificultando ou impedindo o acesso a crédito e serviços bancários", afirma o advogado.
Ele ainda ressalta a importância de reunir toda a documentação que comprove a quitação da dívida antes de iniciar qualquer medida e lembra que ações indenizatórias possuem prazo prescricional de três anos. A situação evidencia a fragilidade dos processos de migração de carteiras no sistema financeiro brasileiro e a necessidade de maior transparência e eficiência na comunicação entre instituições durante liquidações.