O terreno que abriga o Centro de Tradições Nordestinas, popularmente conhecido como Feira de São Cristóvão, será levado a leilão no dia 25 de fevereiro de 2026. A medida é resultado de um processo de execução fiscal movido pela União contra a Riotur, empresa responsável pela administração do espaço. O lance mínimo estabelecido é de pouco menos de R$ 25 milhões, valor que coloca em risco a continuidade de uma das tradições mais queridas da cidade do Rio de Janeiro.
Incerteza e apreensão entre lojistas
Os comerciantes e frequentadores da feira estão vivendo um momento de grande apreensão, sem saber qual será o destino do local que é considerado um patrimônio cultural e imaterial. O edital do leilão, elaborado com sugestão da própria Riotur, não faz qualquer menção sobre a permanência ou retirada do Centro de Tradições Nordestinas do terreno. Essa omissão tem gerado angústia entre quem depende do espaço para seu sustento e preservação cultural.
"Levamos um susto. Desde então, não temos dormido. A gente tem pensado no que vai fazer. Espero que a prefeitura tome uma posição, resolva essa situação por lá para não tirar a nossa casa", declarou o diretor do Centro de Tradições Nordestinas, Magno Pereira. Suas palavras refletem o sentimento de insegurança que toma conta da comunidade nordestina radicada no Rio.
Resistência jurídica e apelo emocional
A comissão que administra o espaço já entrou com um embargo na Justiça na tentativa de impedir a realização do leilão. Paralelamente, Magno Pereira faz um apelo emocional, destacando a importância simbólica do local: "A gente não tem para onde ir. Onde seria a feira de São Cristóvão? Se não for em São Cristóvão, perde o brilho, perde a essência". O terreno está penhorado para quitar dívidas, principalmente de natureza fiscal e trabalhista.
Entre os débitos, destaca-se uma infração trabalhista de 2012, quando a Riotur deixou de conceder o período mínimo de 11 horas consecutivas para descanso entre diferentes jornadas de trabalho. Essa pendência, somada a outras obrigações financeiras, culminou na decisão de leilão.
Posicionamento da prefeitura e tombamento
Em nota oficial, a Prefeitura do Rio de Janeiro afirmou que está trabalhando ativamente para impedir o leilão e que não medirá esforços para manter o Pavilhão de São Cristóvão como um imóvel público. Essa declaração traz um fio de esperança, mas a situação ainda é incerta.
O pavilhão onde a feira funciona possui uma trajetória histórica marcante. Construído em 1959 para a Exposição Internacional da Indústria e do Comércio, com projeto do renomado arquiteto Sérgio Bernardes, o prédio era considerado ousado para sua época, apresentando uma das maiores áreas cobertas do mundo sem vigas.
Reconhecimento cultural e abandono
Apesar de sua importância arquitetônica, o local sofreu com a falta de conservação ao longo dos anos. O espaço chegou a ser utilizado como barracão de escolas de samba e, após um vendaval na década de 1980, transformou-se em depósito da Riotur. Somente em 2003 o pavilhão passou a abrigar o Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, revitalizando sua função social.
Em 2021, a Câmara de Vereadores do Rio tombou o pavilhão, e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu o espaço como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Essas medidas de proteção, no entanto, não foram suficientes para evitar a ameaça atual do leilão, que coloca em xeque a preservação dessa joia cultural carioca.