Mulheres conquistam espaço na cirurgia oncológica, mas desafios persistem
Avanço feminino na cirurgia oncológica enfrenta barreiras

A presença feminina na cirurgia oncológica está em ascensão, desafiando uma tradição historicamente masculina e provando competência e excelência técnica. No entanto, essa conquista ainda esbarra em barreiras estruturais que precisam ser superadas para consolidar o progresso e garantir um futuro mais justo e eficaz na medicina.

Os desafios enfrentados pelas cirurgiãs

O caminho para as mulheres na cirurgia, especialmente na oncologia, é marcado por obstáculos que vão além da complexidade técnica da profissão. Vieses inconscientes afetam todas as etapas da carreira, desde a seleção para residência até a progressão para cargos de liderança. A formação em cirurgia oncológica exige, no mínimo, cinco anos de treinamento intensivo, um período que pode ser ainda mais desafiador na ausência de modelos femininos em destaque e de redes de apoio robustas.

Barreiras informais, como assédio, questionamentos constantes sobre a competência e cobranças desproporcionais relacionadas à maternidade e à vida pessoal, ainda permeiam o ambiente profissional. Essas situações impactam diretamente a contratação, a permanência e a ascensão na carreira, podendo levar ao desgaste profissional e à evasão precoce de talentos qualificados.

A excelência técnica não tem gênero

A qualidade em cirurgia é medida por critérios objetivos: habilidade técnica, julgamento clínico, trabalho em equipe, taxas de sucesso e segurança do paciente. Não existem evidências científicas que liguem a capacidade cirúrgica ao gênero. Pelo contrário, estudos demonstram que cirurgiãs alcançam resultados e desfechos para os pacientes tão bons quanto, ou até superiores, aos de seus colegas homens.

Essa realidade reforça que o foco deve permanecer na competência e nos resultados clínicos. Uma equipe cirúrgica diversa tende a tomar decisões mais robustas e a oferecer um cuidado mais abrangente, priorizando sempre o bem-estar do paciente.

Iniciativas para um ambiente mais justo e meritocrático

Para transformar esse cenário, é essencial ir além da eliminação de preconceitos explícitos e combater os vieses inconscientes em processos de seleção, avaliação e promoção. Iniciativas como a comissão permanente de cirurgiãs oncológicas (Athenas), da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), buscam promover a competência e resultados favoráveis, inspiradas nos ideais de sabedoria e justiça.

A educação continuada sobre diversidade e inclusão para líderes e equipes de recrutamento é outro passo fundamental para criar um ambiente mais equitativo. A verdadeira meritocracia exige que o desempenho seja o único fator de progressão, em um contexto que inclua trabalho seguro, políticas antiassédio claras e valorização da maternidade sem penalizações profissionais.

O futuro: representatividade como regra, não exceção

O futuro da carreira cirúrgica é promissor e diverso. Há um reconhecimento crescente de que a inclusão é um pilar da excelência médica. A expansão da presença feminina nas residências de cirurgia oncológica, embora significativa, ainda não se reflete de forma proporcional nas posições de comando e decisão.

A ocupação da vice-presidência da SBCO por uma mulher, a cirurgiã oncológica Viviane Rezende de Oliveira, é um marco simbólico construído com anos de dedicação. No entanto, essa representatividade precisa se tornar a regra, e não a exceção. A liderança institucional é crucial para fomentar uma cultura de respeito, igualdade e valorização da diversidade.

Superar desafios históricos exige um compromisso coletivo com a igualdade de oportunidades. Garantir a permanência de mulheres qualificadas na cirurgia é crucial não apenas para a organização do cuidado oncológico, mas para todas as especialidades cirúrgicas. Ao abraçar essa visão, a profissão se tornará mais justa, inclusiva, robusta e inovadora, assegurando que os melhores talentos, independentemente de gênero, estejam a serviço da vida.