Para mais de 10 milhões de brasileiros que vivem com doenças inflamatórias intestinais (DII), como a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa, a simples rotina de se alimentar pode se transformar em uma fonte de ansiedade e desconforto. A relação com a comida é frequentemente marcada pelo temor de despertar sintomas dolorosos, como cólicas abdominais, diarreia, sangramento e uma fadiga debilitante.
Não existe dieta única, mas um caminho personalizado
Contrariando ideias preconcebidas, especialistas são enfáticos: não há uma "dieta para DII" universalmente aplicável. O consenso entre gastroenterologistas e nutricionistas é que a estratégia alimentar deve ser cuidadosamente adaptada a cada paciente. "O paciente com DII precisa ser visto de forma integral. O que comemos afeta diretamente a flora intestinal, a mucosa e a inflamação", destaca o Dr. Sérgio Teixeira, diretor médico da Ferring no Brasil.
O manejo nutricional inteligente leva em conta as duas fases distintas dessas condições:
- Fase ativa (crise): Período de inflamação intensa e sintomas agudos.
- Fase de remissão: Momento em que a doença está controlada e os sintomas são mínimos ou inexistentes.
O que priorizar e o que evitar em cada fase
Durante a fase ativa, o objetivo principal é poupar o intestino. A recomendação é adotar uma dieta de baixo resíduo, com fácil digestão. Alimentos como arroz branco, batata inglesa sem casca, cenoura cozida, banana prata, maçã sem casca e inhame são geralmente bem tolerados.
Já na fase de remissão, o foco muda para a reconstrução da saúde intestinal. A reintrodução lenta e progressiva de certos alimentos é fundamental para nutrir a microbiota benéfica. Itens como aveia, leguminosas (feijão, ervilha), frutas cítricas e sementes de chia e linhaça passam a ter um papel importante.
Grupos de alimentos que exigem atenção redobrada
A Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença de Crohn (ABCD) alerta para alguns grupos que costumam causar mais desconforto e, por isso, demandam consumo cauteloso, especialmente nas crises:
- Fibras insolúveis: Presentes em cascas de frutas, verduras cruas, grãos integrais e sementes. Podem aumentar a produção de gases e a dor abdominal.
- Lactose: A intolerância secundária é comum durante as fases inflamatórias, fazendo com que leite e derivados piorem os sintomas.
- Alimentos ultraprocessados: Ricos em aditivos, gorduras trans e açúcares, estão ligados ao aumento do processo inflamatório no intestino e no corpo todo.
- Alimentos gasogênicos: Como feijão, repolho e brócolis, podem intensificar o inchaço e o desconforto abdominal.
O Dr. Sérgio Teixeira resume: "Nas crises, o foco é poupar o intestino e aliviar os sintomas; na remissão, buscamos manter a nutrição, diversificar a microbiota e prevenir novas crises". Ele finaliza reforçando que "a alimentação tem papel direto na qualidade de vida" desses pacientes, e que escolhas conscientes, guiadas por profissionais, são determinantes para o controle da doença a longo prazo.
Um sinal de alerta curioso: Dificuldade para arrotar, quando acompanhada de barriga estufada e excesso de gases, pode ser um indicativo de que algo não vai bem com o sistema digestivo e merece atenção.