Jovem de Amparo viraliza ao relatar descoberta de condição intersexo com DNA masculino
Mulher intersexo com DNA masculino viraliza ao contar descoberta

Jovem de Amparo viraliza ao relatar descoberta de condição intersexo com DNA masculino

Aos 26 anos, Letycia Rosa, moradora de Amparo, no interior de São Paulo, conquistou milhões de visualizações nas redes sociais ao compartilhar sua história como pessoa intersexo. A descoberta começou ainda na adolescência, quando exames médicos investigavam a ausência da primeira menstruação.

Da investigação médica à descoberta surpreendente

A jornada de Letycia iniciou-se aos 15 anos, quando sua avó a levou ao médico preocupada com a demora da menarca. Exames de ultrassom e ressonância magnética revelaram uma realidade inesperada: a jovem havia nascido sem útero ou ovários. "Parecia que o médico estava vendo uma assombração na tela", recorda Letycia sobre o momento do diagnóstico.

Encaminhada ao Hospital da Mulher da Unicamp, em Campinas, ela passou por diversas avaliações até que, em 2016, foi submetida a uma cirurgia para remover o que os médicos descreveram como "trompas atrofiadas". Anos mais tarde, descobriria que o procedimento havia, na verdade, removido testículos internos.

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O diagnóstico que redefiniu uma identidade

Somente em 2024, durante uma consulta de rotina, Letycia ouviu pela primeira vez o termo que explicava sua condição: intersexo. "Descobri que não operei aos 16 para retirar trompas, mas, sim, os testículos", revela. A médica explicou que ela possuía a Síndrome de Morris, condição em que a pessoa nasce com cromossomo XY (tipicamente masculino) mas se desenvolve com características femininas.

O impacto emocional foi significativo. "Eu me questionava: 'será que a vida, será que hoje eu me identifico como mulher, porque eu fui criada como uma mulher?'", compartilha Letycia, que enfrentou períodos de depressão e ansiedade enquanto processava as informações.

Complicações de saúde e nova perspectiva

Além das questões identitárias, Letycia enfrentou desafios físicos decorrentes de sua condição. Com 1,87m de altura e calçando 44, ela desenvolveu problemas ósseos que exigiram cirurgia no fêmur. "Passei 60 dias de cama, e foi muito difícil emocionalmente para mim", conta sobre o período de recuperação.

Foi durante essa convalescença que ela mergulhou em pesquisas sobre intersexualidade e decidiu compartilhar sua história nas redes sociais. Um de seus vídeos alcançou impressionantes 4,4 milhões de visualizações, conectando-a com outras pessoas que vivem realidades similares.

Um possível novo diagnóstico

Recentemente, Letycia descobriu que sua condição pode não ser a Síndrome de Morris, mas sim a Deficiência da Enzima 17-alfa-hidroxilase, uma forma ainda mais rara de hiperplasia adrenal congênita. O endocrinologista Íkaro Soares Santos Breder, que acompanhou seu caso, explica as diferenças:

Na Síndrome de Morris: o corpo produz testosterona mas não consegue utilizá-la adequadamente, resultando em desenvolvimento com aparência feminina apesar do cromossomo XY.

Na Deficiência da Enzima 17-alfa-hidroxilase: há produção muito baixa de testosterona, podendo causar pressão arterial elevada, falta de cortisol e alterações metabólicas, além da ausência de desenvolvimento das características sexuais masculinas.

Intersexualidade versus transexualidade

Letycia esclarece que, embora sua história às vezes seja confundida com questões de identidade de gênero, ser intersexo refere-se especificamente a variações biológicas congênitas. "Hoje eu digo que a ciência explica o meu corpo, mas não explica a minha alma", reflete.

A distinção é importante: enquanto pessoas intersexo nascem com características biológicas que não se encaixam nas definições típicas de masculino ou feminino, pessoas transexuais têm identidade de gênero diferente daquela atribuída ao nascer.

Representatividade e aceitação

Para Letycia, compartilhar sua história tornou-se uma missão. "O mais importante para mim era atingir mulheres que tivessem a mesma condição", afirma, destacando como muitas pessoas a procuraram após ver seus vídeos, agradecendo pela representatividade.

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Apesar dos desafios médicos e emocionais, ela encontrou paz em sua identidade: "Tive absoluta certeza de que, sim, sou uma mulher, apenas nasci com essa condição. Sou uma mulher com DNA masculino". Seu caso continua em investigação médica, mas sua mensagem de aceitação e compreensão já alcançou milhões.