Influenciador Peter Liu é condenado por manter empregada em trabalho análogo à escravidão por 30 anos em Campinas
Peter Liu condenado por trabalho análogo à escravidão em Campinas

Influenciador de medicina chinesa é condenado por manter empregada em condições análogas à escravidão por três décadas

O Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região (TRT-15), com sede em Campinas (SP), homologou nesta terça-feira (27) um acordo judicial entre o influenciador digital de medicina chinesa Peter Liu, sua família e a mulher que os denunciou por mantê-la em trabalho análogo à escravidão durante impressionantes 30 anos. O caso, que chocou a opinião pública, revela detalhes alarmantes sobre exploração laboral prolongada.

Acordo judicial estabelece pagamento de R$ 700 mil e regularização trabalhista

De acordo com informações apuradas pelo g1, o acordo homologado estabelece que Peter Liu realizará o pagamento de R$ 700 mil à ex-empregada, além da obrigatória anotação do vínculo empregatício em sua carteira de trabalho. Vale destacar que, em primeira instância, o especialista em medicina chinesa havia sido condenado ao pagamento de R$ 1,2 milhão em obrigações trabalhistas, valor que foi reduzido mediante o acordo consensual.

A relatora do Centro Judiciário de Métodos Consensuais de Solução de Disputas (Cejusc) expediu intimação formal às partes envolvidas para comunicar a decisão de homologação do processo. O representante legal da ex-empregada optou por não se manifestar publicamente sobre os termos do acordo judicial.

Condições degradantes e rotina exaustiva durante três décadas

Os detalhes do processo contra o influenciador revelam uma situação de extrema vulnerabilidade. A vítima, natural de Pernambuco, foi induzida a mudar para Campinas em 1992 com a promessa de regularização salarial que nunca se concretizou. Durante todo esse período, ela atuou simultaneamente como:

  • Babá da família Liu
  • Empregada doméstica residencial
  • Funcionária da clínica de medicina chinesa do influenciador

Segundo depoimentos colhidos durante o processo, a mulher permanecia à disposição da família por 24 horas diárias, sem jamais ter recebido salário, férias remuneradas ou descanso semanal adequado. Sua rotina iniciava às 4 horas da madrugada, quando preparava o café da família, e se estendia até as 22h30 na clínica, totalizando jornadas exaustivas.

Condições de moradia e alimentação precárias

As condições de vida impostas à empregada eram particularmente degradantes. Inicialmente, ela dormia em um sofá, sendo posteriormente transferida para uma maca em condições inadequadas dentro da própria clínica irregular mantida por Peter Liu. A alimentação, em muitas ocasiões, dependia de doações feitas por pacientes do estabelecimento.

O rompimento do vínculo ocorreu apenas em 2022, quando a mulher recebeu ameaças da esposa de Liu e decidiu buscar auxílio jurídico. Atualmente, ela reside na casa da filha do influenciador, por quem foi cuidada desde a infância e com quem estabeleceu laços afetivos significativos.

Posicionamento da defesa de Peter Liu

Em nota oficial, a defesa do influenciador de medicina chinesa afirmou que "com a homologação judicial, ficou definitivamente afastada qualquer acusação relacionada a trabalho análogo à escravidão". Os advogados argumentaram que o ajuste celebrado limitou-se exclusivamente a um acordo trabalhista "de natureza comum, sem reconhecimento de irregularidades graves".

A defesa ainda complementou que "o próprio desfecho do processo evidencia que a imputação inicial de trabalho análogo à escravidão não se sustentou, prevalecendo o bom senso, o equilíbrio jurídico e a solução consensual entre as partes".

Testemunho da filha do influenciador

Um dos elementos mais significativos do processo foi o depoimento da filha de Peter Liu, que afirmou ter interrompido imediatamente qualquer forma de prestação de serviços pela ex-empregada assim que tomou conhecimento da situação. A jovem ainda incentivou ativamente que a mulher buscasse proteção judicial, demonstrando consciência sobre a gravidade das condições impostas.

Este caso emblemático ocorre em Campinas, importante polo tecnológico e econômico do interior paulista, e levanta questões fundamentais sobre proteção trabalhista, direitos humanos e a responsabilidade social de influenciadores digitais com milhões de seguidores nas redes sociais.