Em meio a uma guerra que se aproxima de quatro anos, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, promoveu uma reorganização estratégica no núcleo do seu governo. A mudança ocorre às vésperas de uma cúpula decisiva em Paris, onde líderes aliados discutirão o futuro do conflito e garantias de segurança para o país.
Reforma no poder: segurança e economia em foco
Zelensky aceitou a renúncia do general Vasyl Maliuk, chefe do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU), e nomeou interinamente Ievhen Khmara, um ex-comandante de unidade especial da agência, para o cargo. Esta não é a única alteração recente. Na semana passada, o presidente já havia designado o chefe da inteligência militar, Kyrylo Budanov, como novo chefe de gabinete da Presidência, consolidando o setor de segurança no centro do poder.
Analistas interpretam as trocas não como uma ruptura, mas como um ajuste fino na cadeia de comando. O objetivo é agilizar decisões em um contexto de guerra prolongada e recursos limitados, melhorando a coordenação entre inteligência, Forças Armadas e a Presidência.
No campo econômico, Zelensky anunciou a nomeação da ex-vice-primeira-ministra do Canadá, Chrystia Freeland, como assessora especial para o desenvolvimento econômico. De origem ucraniana e conhecida crítica do presidente russo Vladimir Putin, Freeland traz experiência em grandes acordos comerciais e articulação com Washington e Bruxelas. A aposta é que seu perfil ajude a atrair investimentos e estruturar projetos de reconstrução.
Contudo, a escolha carrega uma controvérsia potencial. Freeland teve uma relação tensa com o ex-presidente dos EUA Donald Trump, que a descreveu publicamente como "difícil" e "tóxica". Isso pode complicar a interlocução em um momento em que Washington tem um papel central nas conversas de paz.
Cúpula de Paris busca compromissos concretos do Ocidente
As mudanças internas ocorrem no contexto da preparação para uma reunião crucial em Paris. O encontro, marcado para reunir líderes de cerca de 30 países aliados, tem como foco principal discutir garantias de segurança de longo prazo para a Ucrânia. A ideia é criar mecanismos que impeçam uma nova invasão russa no futuro, caso um cessar-fogo ou acordo de paz seja assinado.
Este é um ponto extremamente sensível, dado o histórico de violações russas a pactos anteriores, como os Acordos de Minsk. Entre os temas mais delicados em discussão está a possibilidade de envio de tropas estrangeiras para território ucraniano ou regiões vizinhas, com o mandato de supervisionar um eventual cessar-fogo. O Kremlin já declarou veementemente que não aceitará a presença de forças da Otan na Ucrânia, limitando o espaço para manobras diplomáticas.
Guerra continua intensa enquanto a diplomacia avança
Enquanto os preparativos para a cúpula seguem, os combates no terreno não dão trégua. Na madrugada de segunda-feira, um ataque russo com drones atingiu uma clínica privada em Kiev, resultando na morte de um paciente e ferindo outras três pessoas, segundo autoridades locais. O governo ucraniano reportou que Moscou lançou mais de 160 drones e mísseis contra alvos civis e infraestrutura energética, agravando os apagões no rigoroso inverno.
Zelensky reconheceu que a principal vantagem da Rússia continua sendo sua superioridade numérica e capacidade de manter ataques em larga escala. A estratégia de resposta ucraniana, segundo ele, passa pelo uso intensivo de tecnologia, desenvolvimento acelerado de novos armamentos e táticas assimétricas.
Do lado russo, autoridades relataram novos ataques de drones ucranianos em regiões do oeste do país, incluindo instalações industriais e aeroportos, o que levou à suspensão temporária de voos em algumas cidades.
Impasse persiste nas negociações de paz
Apesar de Zelensky afirmar que um esboço de acordo de paz mediado pelos Estados Unidos estaria "90% pronto", os pontos restantes seguem como obstáculos quase intransponíveis. O status dos territórios ocupados e a natureza das garantias de segurança são os nós centrais. Moscou insiste que não aceitará um cessar-fogo sem um acordo amplo, enquanto Kiev teme que uma trégua mal estruturada apenas congele o conflito, dando tempo à Rússia para se rearmar.
A troca no comando da segurança e a ampliação do núcleo econômico do governo de Zelensky enviam um sinal claro: a Ucrânia se prepara para um período prolongado de incerteza. A estratégia é dupla e desafiadora: negociar sem baixar a guarda e resistir no campo de batalha sem perder o apoio político e financeiro essencial do Ocidente. O sucesso dessa empreitada será testado tanto nos salões de Paris quanto nas trincheiras do leste ucraniano.