UE destrava acordo Mercosul após concessões à Itália; votação decisiva é sexta
UE destrava acordo Mercosul; votação decisiva é sexta

As negociações do acordo de livre-comércio entre a União Europeia e o Mercosul foram destravadas nesta quarta-feira (7), em um movimento que surpreendeu observadores e abriu caminho para uma votação decisiva marcada para sexta-feira. O avanço ocorre no contexto geopolítico da recente intervenção americana na Venezuela e após significativas concessões feitas à Itália, que mudou sua posição contrária ao tratado.

Concessões Bilionárias e a Virada Italiana

O ponto crucial para o destravamento foi a mudança de posição da Itália. O país, que antes do Natal havia se alinhado ao grupo de oposição liderado pela França, obteve benefícios concretos. A principal conquista foi a antecipação de cerca de 45 bilhões de euros em subsídios agrícolas do próximo orçamento da UE, destinados a acalmar os produtores rurais europeus.

Além disso, o ministro italiano da Agricultura, Francesco Lollobrigida, garantiu uma isenção tarifária para fertilizantes. Esses insumos estavam na mira do CBAM, o mecanismo de ajuste de carbono nas fronteiras da UE, que começou a vigorar este mês. A Itália defende que os fertilizantes fiquem permanentemente fora da taxação, que pode chegar a 25%.

Em comunicado, o ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, afirmou que o governo "sempre apoiou a conclusão do acordo", destacando a necessidade de considerar as preocupações do setor agrícola. Para ele, o tratado traz "enormes benefícios".

O Preço do Acordo e o Timing Geopolítico

Para conseguir o avanço, a Comissão Europeia aceitou pagar um preço político. Um deles foi desmoralizar o novo mecanismo de carbono (CBAM) quase em sua estreia, ao conceder a isenção. Outro foi recuar em uma nova política de controle sobre a liberação de fundos agrícolas durante o orçamento 2028-2034.

O timing das decisões, poucos dias após a captura de Nicolás Maduro em Caracas, sugere uma disposição renovada do bloco europeu em fechar o pacto. O acordo é visto como uma forma de dar fôlego à economia europeia diante de crescentes desafios geopolíticos. A reação dos Estados Unidos, após a exibição da chamada "Doutrina Donroe" na Venezuela por Donald Trump, era uma dúvida entre diplomatas em Bruxelas, mas até o momento o tema passou sem grandes comentários da Casa Branca.

Oposição Francesa e Próximos Passos

Com a mudança da Itália, a França dificilmente conseguirá formar uma minoria de bloqueio no Conselho da UE, que exige o apoio de pelo menos quatro países representando 35% da população do bloco. Mesmo assim, o governo francês mantém-se inflexível e já planeja suas próximas jogadas.

A aprovação no Conselho, prevista para sexta-feira, permitiria à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, viajar à América do Sul para a assinatura do acordo na próxima semana. A data provável para a cerimônia seria segunda-feira (12).

No entanto, a estratégia francesa pode ser prolongar o debate ou minar o documento no Parlamento Europeu. A porta-voz do governo francês, Maud Bregeon, lembrou que os eurodeputados poderiam levar o acordo para apreciação do Tribunal de Justiça da UE, um trâmite que levaria anos. A recente suspensão de importação de frutas do Mercosul com traços de agrotóxicos é vista como o primeiro movimento dessa ofensiva.

A aprovação final sem o apoio da França, um dos países fundadores da UE, seria um fato inédito e aprofundaria a crise política no país, pressionando ainda mais o primeiro-ministro Sébastian Lecornu. O jornal Le Monde classificou a oposição do presidente Emmanuel Macron ao tratado como uma "aposta diplomática errada em um momento decisivo para a Europa".