Discurso de Trump no Estado da União é marcado por alegações falsas e distorcidas
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apresentou uma realidade frequentemente distorcida sobre a situação do país durante o tradicional discurso do "Estado da União" na terça-feira (25). Em sua fala ao Congresso norte-americano, Trump reivindicou uma "virada histórica" protagonizada por seu governo, mas suas alegações sobre diversos temas não resistem a uma análise mais rigorosa, conforme demonstrado pela agência de notícias Associated Press (AP).
Retórica baseada na desinformação
Segundo a AP, Trump "voltou a recorrer a uma retórica baseada na desinformação" durante seu discurso. A agência realizou uma checagem detalhada das principais afirmações do presidente, identificando padrões de falsidade e distorção em múltiplos temas que vão desde eleições até economia e imigração.
Alegações sobre eleições são falsas
Uma das afirmações mais contundentes de Trump foi sobre suposta fraude eleitoral generalizada. O presidente declarou: "Peço que aprovem o Save America Act para impedir que imigrantes ilegais e outras pessoas não autorizadas votem. A fraude é generalizada."
Checagem: Falso. Trump e seus aliados nunca apresentaram provas de fraude eleitoral generalizada. Especialistas afirmam que fraude eleitoral é extremamente rara nos Estados Unidos. Em Michigan, por exemplo, uma revisão identificou apenas 15 pessoas que aparentemente não eram cidadãs e votaram na eleição geral de 2024, entre mais de 5,7 milhões de votos totais. Treze desses casos foram encaminhados ao procurador-geral para investigação.
Afirmações econômicas são enganosas
Trump fez várias declarações sobre a economia norte-americana que foram classificadas como enganosas pela análise factual. O presidente afirmou: "Quando falei pela última vez neste plenário, há 12 meses, eu havia acabado de herdar uma nação em crise, com uma economia estagnada."
Checagem: Enganoso. Embora os eleitores estivessem insatisfeitos com a inflação elevada nas eleições de 2024, a economia dos EUA estava longe de estagnada. O Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA cresceu 2,8% em 2024, já descontada a inflação, um ritmo mais forte do que os 2,2% registrados no ano anterior.
Outra afirmação econômica questionável foi: "As rendas estão subindo rapidamente, a economia em alta está rugindo como nunca."
Checagem: Enganoso. A renda após impostos, ajustada pela inflação, subiu apenas 0,9% em 2025, abaixo dos 2,2% de 2024, último ano de Biden no cargo. O ganho anual no primeiro ano de Trump é o menor desde 2022, quando a inflação disparou e reduziu a renda real dos americanos.
Política de imigração contradiz discurso
Sobre imigração, Trump declarou: "Sempre permitiremos que pessoas entrem legalmente, pessoas que amem nosso país e trabalhem duro para mantê-lo."
Checagem: Enganoso. Na prática, Trump adotou medidas para restringir quem pode imigrar para os EUA, frequentemente sob o argumento de proteger a segurança nacional. Entre as ações estão:
- Suspensão do programa de refugiados no primeiro dia de governo
- Retomada limitada do programa apenas para sul-africanos brancos em outubro
- Restrições a viagens e imigração de quase 40 países, muitos na África
- Deportação de imigrantes com status legal temporário através de revogações em massa de programas de asilo
A mídia norte-americana vem denunciando que o Departamento de Segurança Interna tem prendido e deportado imigrantes ilegais que estão nos EUA há anos e sem ficha criminal.
Investimento estrangeiro exagerado
Trump afirmou ter "garantido compromissos de mais de US$ 18 trilhões (cerca de R$ 93 trilhões) fluindo de todas as partes do mundo."
Checagem: Enganoso. O presidente não apresentou provas de que tenha garantido esse volume de investimento, doméstico ou estrangeiro, nos EUA. Com base em declarações de empresas, países estrangeiros e no próprio site da Casa Branca, o valor parece exagerado, altamente especulativo e muito superior ao montante real. O site da Casa Branca apresenta um número bem menor, US$ 9,6 trilhões (cerca de R$ 49,5 trilhões), que aparentemente inclui compromissos feitos ainda durante o governo Biden.
Geração de empregos com contexto omitido
Sobre emprego, Trump disse: "Mais americanos estão trabalhando hoje do que em qualquer momento da história do nosso país."
Checagem: Verdade, mas em partes. Sim, mais norte-americanos estão trabalhando, mas o número de cidadãos empregados sempre cresce à medida que a população aumenta. O indicador relevante é a proporção de americanos com emprego, que caiu significativamente no último quarto de século, em parte porque a força de trabalho está envelhecendo e mais pessoas estão aposentadas. Essa proporção atingiu o pico de 64,7% em abril de 2000 e estava em 59,8% em janeiro deste ano.
Crime em queda desde antes do governo atual
Trump reivindicou crédito por redução na criminalidade: "No ano passado, a taxa de homicídios teve a maior queda já registrada na história."
Checagem: Enganoso. A fala é enganosa porque o crime já vinha em queda nos últimos anos. Um estudo divulgado em janeiro pelo Council on Criminal Justice apontou redução de 21% na taxa de homicídios entre 2024 e 2025 em 35 cidades analisadas. Relatórios do FBI para 2023 e 2024 já mostravam reduções significativas. O crime havia disparado durante a pandemia de coronavírus, com aumento de quase 30% nos homicídios em 2020, mas voltou a níveis próximos aos anteriores à pandemia por volta de 2022, durante o governo Biden.
O discurso do Estado da União de Trump revela um padrão de afirmações que frequentemente divergem dos fatos verificáveis, segundo a análise da Associated Press. As alegações abrangem múltiplas áreas de política pública e apresentam uma visão otimista do governo atual que não corresponde completamente à realidade documentada por dados oficiais e estudos independentes.



