Declaração de Trump sobre posse da Groenlândia na 2ª Guerra é falsa, apontam especialistas
Trump erra sobre posse da Groenlândia na 2ª Guerra

Declaração de Trump sobre posse da Groenlândia na 2ª Guerra é falsa, apontam especialistas

Durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, realizado nesta quarta-feira (21), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez uma afirmação histórica enganosa que rapidamente circulou nas redes sociais. Em seu discurso para líderes europeus, Trump alegou que os Estados Unidos se tornaram "donos" da Groenlândia durante a Segunda Guerra Mundial e, após o conflito, "devolveram" o território à Dinamarca.

O contexto da declaração

O pronunciamento ocorreu no âmbito de justificativas repetidas do mandatário americano sobre por que os EUA deveriam tomar o controle da Groenlândia, uma ilha que pertence à Dinamarca desde 1814. Trump afirmou textualmente: "Colocamos bases militares na Groenlândia para defendê-la e salvá-la. Fortificamos a Dinamarca. Impedimos que os inimigos conquistassem a Groenlândia. Demos a Groenlândia de volta para a Dinamarca, que ideia estúpida. E olha o quão ingratos eles são agora. Deveríamos tê-la mantido".

Entretanto, especialistas em relações internacionais e documentos históricos disponíveis publicamente demonstram que essa versão dos fatos não corresponde à realidade.

Os fatos históricos comprovados

Vitelio Brustolin, professor de relações internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF), explicou ao Fato ou Fake a sequência real dos eventos:

  1. Em 1940, a Alemanha Nazista ocupou a Dinamarca, gerando temores de que a Groenlândia pudesse cair em mãos alemãs.
  2. Em 9 de abril de 1941, os EUA assinaram o acordo "Defesa da Groenlândia" com representantes dinamarqueses no exílio.
  3. Esse acordo permitia aos americanos proteger o território e instalar bases e aeroportos, mas nunca previu transferência de posse.
  4. O primeiro artigo do documento, disponível no site govinfo.gov, reafirma explicitamente o reconhecimento da soberania dinamarquesa sobre a Groenlândia.

Brustolin enfatiza: "Os americanos agiram para ajudar um aliado, mas a Groenlândia nunca foi dos EUA".

Tentativas posteriores e contexto atual

O professor ainda recapitulou que, em 1946, o governo Truman tentou comprar a ilha da Dinamarca por US$ 100 milhões em ouro, proposta que foi formalmente rejeitada. Já em 1951, um novo acordo entre os países permitiu a instalação de bases americanas, confirmando novamente a soberania dinamarquesa.

Desde o início de seu segundo mandato, em 2025, Trump tem defendido a anexação da Groenlândia, alegando que o controle do território seria crucial para os interesses de segurança nacional de Washington. Um dos desdobramentos mencionados seria a instalação de um sistema de defesa antimíssil chamado "Domo de Ouro".

Localizada estrategicamente entre os EUA e a Rússia, a Groenlândia possui 2.166.000 km² e é vista há muito tempo como área de grande importância para a segurança do Ártico. Atualmente, os EUA mantêm menos de 200 militares na ilha, uma redução drástica em relação aos cerca de 10 mil durante o auge da Guerra Fria.

Após participar de Davos, Trump anunciou que o governo americano e a Otan estabeleceram a estrutura de um futuro acordo envolvendo a Groenlândia e a região do Ártico, marcando um recuo em relação às ameaças recentes de anexação.

Por que a declaração é falsa

  • Não houve transferência de posse da Groenlândia para os EUA durante a Segunda Guerra Mundial
  • O acordo de 1941 era de proteção, não de propriedade
  • Documentos históricos comprovam o reconhecimento contínuo da soberania dinamarquesa
  • Especialistas classificam a afirmação como enganosa e historicamente incorreta

Esta checagem integra o esforço contínuo do Fato ou Fake para combater a desinformação em temas de relações internacionais e história global.