O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta sexta-feira (9) a suspensão de novos ataques militares contra a Venezuela. A decisão foi tomada após o regime de Caracas libertar um grupo de presos políticos, em um movimento classificado por Washington como um sinal de cooperação.
Libertação como gesto de paz
O anúncio de Trump ocorre um dia depois de o governo venezuelano, agora liderado interinamente por Delcy Rodríguez, ter concedido a liberdade a pelo menos oito opositores detidos. A organização não governamental Foro Penal confirmou as solturas.
Essas detenções eram amplamente criticadas por entidades de direitos humanos como arbitrárias e uma forma de perseguição política. Os acusados frequentemente enfrentavam acusações graves, como terrorismo, conspiração e traição à pátria.
Em uma publicação em sua rede social Truth Social, o líder republicano afirmou: "A Venezuela está libertando um grande número de presos políticos como sinal de que está buscando a paz". Ele justificou a suspensão dos ataques: "Em razão dessa cooperação, cancelei a segunda onda de ataques que era anteriormente esperada, a qual tudo indica não será necessária".
Contexto político e números da repressão
Apesar do gesto, o número de pessoas liberadas representa menos de 1% do total de detenções políticas realizadas nos últimos anos na Venezuela. A Foro Penal estima que existam atualmente 806 presos por motivos políticos no país. Outras organizações, como a Justiça, Encontro e Perdão, contabilizaram mais de mil casos em novembro do ano passado, indicando que a situação pode ser ainda mais grave.
O anúncio oficial da libertação foi feito na quinta-feira (8) por Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional e irmão da líder interina, Delcy Rodríguez. Ele descreveu a medida como um "gesto unilateral de paz", negando qualquer acordo prévio com outras nações.
Quem foram os libertados?
Entre os que recuperaram a liberdade está a renomada ativista Rocío San Miguel, detida em fevereiro de 2024 quando tentava deixar o país. San Miguel, que possui dupla cidadania venezuelana e espanhola, estava presa no temido centro de detenção conhecido como El Helicoide, qualificado por organizações internacionais como um "centro de tortura".
Outra figura de destaque liberada foi Enrique Márquez, ex-candidato à Presidência. Sua detenção ocorreu após ele denunciar publicamente irregularidades nas eleições de 2024, que garantiram um terceiro mandato a Nicolás Maduro em meio a alegações generalizadas de fraude.
Permanência da força militar e posicionamento de Delcy Rodríguez
Apesar da suspensão dos ataques, Trump deixou claro que a pressão militar não será totalmente removida. Os navios de guerra norte-americanos enviados para o mar do Caribe permanecerão na região, com o objetivo declarado de garantir "ordem e proteção".
Estas são as primeiras libertações ocorridas sob o comando interino de Delcy Rodríguez, que assumiu o poder após a captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, em uma operação militar conduzida pelos Estados Unidos. O casal está atualmente preso em Nova York.
Em um ato público realizado na quinta-feira (8) para homenagear os mortos durante a ação militar que prendeu Maduro, Delcy Rodríguez fez um discurso enfático para afastar especulações sobre traição ou negociações secretas com Washington. "Aqui ninguém se entregou. Aqui houve combate e houve combate por esta pátria", declarou. Ela reafirmou lealdade ao presidente deposto: "Não estamos subordinados nem estamos submetidos. Temos dignidade histórica e temos compromisso e lealdade com o presidente Nicolás Maduro".
Acordo UE-Mercosul avança em paralelo
Em um desenvolvimento paralelo de relevância internacional, a União Europeia superou resistências internas e aprovou, também nesta sexta-feira, o histórico acordo de livre-comércio com o Mercosul. Após anos de negociações e semanas de tensão política, uma maioria qualificada de países do bloco europeu deu sinal verde para o tratado, abrindo caminho para sua assinatura definitiva, mesmo diante de protestos de agricultores e críticas de governos como o da França.
Este avanço nas relações comerciais entre os blocos contrasta com a complexa situação geopolítica envolvendo a Venezuela, demonstrando os múltiplos fronts da diplomacia e da economia global.