Sanções dos EUA causaram colapso econômico na Venezuela, apontam estudos
Sanções dos EUA e colapso econômico na Venezuela

As sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos à Venezuela ao longo dos últimos anos foram um fator determinante para o colapso econômico do país e a consequente crise humanitária que forçou a emigração de milhões de pessoas. É o que apontam análises de especialistas e estudos científicos, que destacam o papel das chamadas Medidas Coercitivas Unilaterais no agravamento da recessão e no sofrimento da população.

O Estrangulamento da Economia Petroleira

O cerco financeiro e comercial iniciado de forma mais abrangente em agosto de 2017, durante o primeiro governo de Donald Trump, teve como alvo principal o coração da economia venezuelana: o petróleo. O país, que possui as maiores reservas do planeta e depende do recurso para mais de 95% de suas receitas de exportação, viu seu setor ser asfixiado.

As medidas obstruíram o financiamento da indústria, dificultaram transações monetárias globais, congelaram ativos no exterior e impediram o refinanciamento da dívida. Em 2019

"A Venezuela é um país rentista petroleiro. Em 2014 o barril do petróleo amargou uma redução de quase 70%. Isso explica a queda do PIB e o início do desabastecimento", explica a economista e socióloga Juliane Furno, professora da UERJ. Ela acrescenta que as sanções, tanto diretas quanto indiretas, agravaram drasticamente o quadro.

Hiperinflação e Êxodo em Massa

O impacto das sanções sobre as receitas em dólar foi catastrófico. Uma pesquisa do economista Jeffrey Sachs indica que, apenas em 2018, o primeiro ano após o bloqueio financeiro, a contração do setor petrolífero saltou de 11,5% para 30,1%. Essa diferença representou uma perda de US$ 8,4 bilhões em divisas essenciais para importar alimentos, medicamentos e insumos.

Essa perda bilionária é apontada por um estudo do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas (CEPR) como o principal fator que empurrou a economia de uma inflação alta para a hiperinflação, consolidada oficialmente em dezembro de 2017. A escassez de produtos básicos e a desvalorização da moeda tornaram a vida insustentável para milhões.

O resultado foi um êxodo humano de proporções históricas. Entre 2013 e 2022, a recessão consumiu cerca de 75% do PIB venezuelano e impulsionou a emigração de mais de 7,5 milhões de pessoas, aproximadamente 20% da população nacional.

Divergências e a Prova da Recuperação

Embora especialistas reconheçam problemas de gestão interna anteriores a 2017, o peso das sanções é inegável. O economista venezuelano Francisco Rodríguez, da Universidade de Denver e crítico dos governos chavistas, afirma que as sanções foram um dos principais fatores para o colapso.

"Dizer que os venezuelanos estão fugindo unicamente por causa do regime de Maduro não passa de uma mera retórica que ignora a questão fundamental: o impacto das sanções nas condições de vida", argumenta Rodríguez. Ele calculou que a reimposição de sanções máximas poderia gerar 1 milhão de emigrantes adicionais em cinco anos.

A prova do efeito das sanções, segundo a professora Juliane Furno, veio com a recuperação econômica a partir de 2022, quando o governo de Joe Biden relaxou algumas medidas. Dados da CEPAL mostram que a Venezuela registrou crescimento do PIB de 8,5% em 2024 e de 6,5% em 2025, sinalizando uma frágil, porém significativa, melhora após anos de queda livre.

O caso venezuelano ilustra como sanções econômicas prolongadas, aplicadas sob justificativas como defesa da democracia e dos direitos humanos, podem ter um efeito devastador sobre a economia e o tecido social de uma nação, com consequências humanitárias que se estendem por toda a região.