Irã: protestos em 300 cidades e linha dura de Khamenei contra manifestantes
Protestos no Irã se espalham por 300 cidades; Khamenei ameaça

O Irã enfrenta uma nova e intensa onda de protestos que já se espalhou por todas as 31 províncias do país, colocando o regime teocrático sob forte pressão. Em resposta, o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, adotou uma postura de confronto direto, acusando os manifestantes de agirem como "mercenários para estrangeiros" e mirando especificamente o ex-presidente americano Donald Trump em seu discurso.

Linha dura do regime e escalada da violência

Nesta sexta-feira (9), Khamenei fez uma rara admissão pública da escala dos distúrbios, que, segundo redes de ativistas, já atingiram cerca de 300 cidades. Ele citou a destruição de um prédio estatal em Teerã na noite anterior, atribuindo o ato a "vândalos e arruaceiros" que estariam agindo para "agradar o coração do presidente dos Estados Unidos". Khamenei finalizou com um recado a Trump: "Deve cuidar do próprio país".

A capital iraniana viveu sua noite mais agitada desde o início da crise, com carros incendiados e multidões nas ruas. O regime respondeu com a tática já conhecida de cortes severos na internet e interrupções no serviço de telefonia celular e fixa, numa tentativa de impedir a organização de novos atos. Até quinta-feira (8), a ONG Iran Human Rights contabilizava 45 mortes entre manifestantes e dois policiais.

Raízes da crise: economia em colapso e descontentamento acumulado

Os protestos atuais começaram a ganhar força em 28 de dezembro, impulsionados por uma grave crise econômica. A inflação anual atinge 42,5% e o rial iraniano perdeu metade de seu valor ante o dólar no ano passado, encarecendo drasticamente os bens importados. Uma crise hídrica sem precedentes, que levou o governo a anunciar um plano para evacuar Teerã, agravou ainda mais o cenário.

Rapidamente, as reivindicações econômicas se misturaram ao descontentamento político, incorporando pautas de protestos anteriores, como os grandes levantes de 2009, 2017, 2019 e 2022-23. Os atos começaram no sensível oeste do país, de maioria curda, mas se espalharam de forma significativa entre quinta e sexta-feira. Em Mashhad, a segunda maior cidade do país e coração espiritual da República Islâmica, houve um grande protesto na madrugada desta sexta.

Um dos episódios mais simbólicos ocorreu na província de Fars, no sul, onde manifestantes derrubaram uma estátua do general Qassem Suleimani, herói nacional do regime, morto em um ataque ordenado por Trump em 2020. Incêndios e vandalismo foram relatados em várias cidades, com um jornalista da TV estatal descrevendo o porto de Rasht, no mar Cáspio, como uma "zona de guerra".

Fragilidade do regime e cenário político incerto

Os protestos pegam a teocracia em um momento de extrema fragilidade. Em 2024, o presidente Ebrahim Raisi, sucessor presumido de Khamenei, morreu em um acidente de helicóptero. O país ainda enfrenta as consequências de trocas de fogo com Israel e de um ataque aéreo americano a suas instalações nucleares em junho de 2025, ordenado por Trump. As sanções econômicas dos EUA, reforçadas após a saída americana do acordo nuclear, continuam a estrangular a economia.

O atual presidente, Masoud Pezeshkian, tenta se equilibrar, demitindo o chefe do Banco Central e fazendo declarações mais amenas. No entanto, Khamenei e a poderosa Guarda Revolucionária mantêm a linha dura e intensificam a repressão. Do lado oposicionista, não há uma liderança clara dentro do país. Quem tenta ocupar esse espaço é Reza Pahlavi, filho do último xá, que vive nos EUA e tem feito apelos por protestos pacíficos em vídeos divulgados online.

Apesar de sua mensagem ressoar entre parte da juventude, como a ativista "Noor" que falou à Folha, é incerto se ele teria força para liderar uma eventual transição de poder. Enquanto isso, os protestos, embora ainda não tenham o volume dos de 2022-23, crescem em violência e espalham-se pelo território, desafiando diretamente a estabilidade do regime fundado pelo aiatolá Khomeini.