Orbán acusa rivais de conspiração estrangeira em clima tenso antes das eleições húngaras
O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, acusou nesta sexta-feira, 10 de abril de 2026, seus adversários políticos de conspiração com serviços de inteligência estrangeiros para gerar caos e questionar os resultados das eleições legislativas que ocorrem no domingo. O autocrata húngaro, que busca um quinto mandato, enfrenta pela primeira vez desde 2010 a possibilidade real de derrota eleitoral.
O maior desafio político em 16 anos de poder
Pesquisas independentes indicam que o conservador pró-Europa Péter Magyar, líder do partido Tisza, aparece como favorito para vencer as eleições no país europeu de quase 10 milhões de habitantes. Orbán, de 62 anos, firmou-se como opositor radical da imigração e dos direitos LGBTQIA+ durante seus três mandatos consecutivos, mas viu seu apoio diminuir significativamente no último ano devido a escândalos de corrupção e estagnação econômica.
Em mensagem publicada no Facebook, o primeiro-ministro não apenas acusou seus adversários de "conspirar com serviços de inteligência estrangeiros" para "tomar o poder", como também denunciou "ameaças de violência" contra seus apoiadores, "acusações de fraude eleitoral fabricadas" e "manifestações pré-organizadas" antes mesmo da contagem dos votos.
Magyar pede calma e serenidade aos húngaros
Péter Magyar respondeu às acusações pedindo aos cidadãos húngaros que "não cedam a nenhum tipo de provocação e mantenham a serenidade". O líder do Tisza também convidou Orbán a "aceitar" o voto popular com "a calma e a dignidade que se impõem".
Em sua própria publicação nas redes sociais, Magyar afirmou: "Fraudes eleitorais em curso, realizadas há meses pelo partido no poder, Fidesz, assim como atos delituosos, operações de inteligência, mentiras e notícias falsas, não podem mudar o fato de que o Tisza vai ganhar estas eleições".
Interferência internacional e apoio de Trump
O clima eleitoral tenso ganhou dimensão internacional quando Magyar advertiu, antes da visita do vice-presidente americano J.D. Vance à Hungria, sobre uma tentativa de Washington de influenciar a votação. Na noite de quinta-feira, o ex-presidente Donald Trump manifestou apoio explícito a Orbán em sua rede social Truth Social: "Hungria: VOTEM EM VIKTOR ORBÁN. Ele é um verdadeiro amigo, um lutador e um VENCEDOR, e conta com meu apoio total e absoluto".
Os estreitos laços de Orbán com os Estados Unidos e sua proximidade com a Rússia contrastam com as relações tensas que mantém com seus parceiros europeus. Durante seus 16 anos no poder, o nacionalista entrou em confronto com Bruxelas em diversas ocasiões, sendo acusado pela União Europeia de silenciar vozes críticas e colocar em dúvida o Estado de direito - o que resultou no congelamento de bilhões de euros de fundos europeus destinados a Budapeste.
Eleições pintadas como escolha entre guerra e paz
Orbán vem retratando as eleições de 2026 como uma escolha entre guerra e paz, apresentando seu governo como a única opção segura em meio ao conflito na Ucrânia. O primeiro-ministro já falou anteriormente de "tentativas de interferência" na votação de 12 de abril, enquanto tenta associar o rival Magyar aos gastos europeus com assistência militar à Ucrânia - além de espalhar a informação falsa de que o Tisza alistaria húngaros para morrer pelo país invadido pela Rússia.
Paralelamente, Orbán mantém laços próximos com o presidente russo Vladimir Putin, relação que tem motivação pragmática: a Hungria depende do gás e de investimentos russos para suprir a maior parte da energia que consome. Em meio a eleições difíceis, o governo evita aumentar a conta do aquecimento dos húngaros por causa de confrontos com o Kremlin.
Legado controverso e democracia iliberal
No poder desde 2010, Orbán construiu vasta base popular com discurso ultraconservador, xenófobo e propagador da "Europa cristã", facilitado pelo aniquilamento da imprensa livre, silenciamento de opositores, aparelhamento das universidades e controle do Judiciário. Figurão do ultranacionalismo que manifesta repulsa aberta a imigrantes e movimentos LGBTQIA+, ele endossa o que chama de "democracia iliberal".
No entanto, muitos dos escândalos de corrupção que minaram seu apoio foram apontados por Péter Magyar, ex-aliado que pertencia ao Fidesz antes de se tornar seu principal adversário político. A estagnação econômica fez até mesmo húngaros antes contentes com o governo se afastarem, criando o cenário para as eleições mais competitivas da Hungria em quase duas décadas.



