México enfrenta teste histórico em relação com Cuba sob pressão dos EUA
México testa relação histórica com Cuba sob pressão americana

México enfrenta teste histórico em relação com Cuba sob pressão dos EUA

A histórica relação entre México e Cuba, que atravessou diferentes tensões desde a Revolução Cubana de 1959, enfrenta neste ano um teste sem precedentes diante da política agressiva dos Estados Unidos para isolar o governo cubano.

Pressão americana e resposta mexicana

Os Estados Unidos lançaram uma política ofensiva contra Cuba, com uma ordem direta do presidente Donald Trump promulgada no fim de janeiro para sancionar países que enviem petróleo à ilha. "Há um embargo. Não há petróleo, não há dinheiro, não há nada", declarou Trump, afirmando que seu governo busca um "acordo" com sua contraparte cubana sem detalhar objetivos específicos.

Depois de pressionar o governo da Venezuela no início do ano, o foco regional dos EUA passou a ser Cuba, país que há mais de seis décadas se mantém como antagonista dos Estados Unidos sob o governo dos irmãos Fidel e Raúl Castro e do herdeiro político deles, Miguel Díaz-Canel.

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A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, criticou abertamente a imposição de sanções dos EUA aos envios de petróleo a Cuba, que definiu como "bastante injusta", mas precisou buscar equilíbrio entre sua cooperação com Cuba e a relação com os Estados Unidos.

Estratégia de equilíbrio diplomático

Sheinbaum optou por aumentar os envios de ajuda humanitária em solidariedade à população cubana, ao mesmo tempo em que cancela o carregamento de mais navios com combustível destinado à ilha, como vinha ocorrendo nos últimos anos. "Não é de agora, é de sempre... Sempre houve apoio a Cuba desde sua Revolução", justificou a presidente mexicana.

Para especialistas, o cenário atual representa um grande teste para Sheinbaum e para a "relação especial" entre seu país e a ilha. Juan Pablo Prado Lallande, analista de relações internacionais, afirma que "hoje o México tenta um exercício de política externa, não apenas de solidariedade, mas estratégico".

"Tem que se pagar um custo, e esse custo é manter essa ajuda humanitária para que o México preserve sua capacidade de negociação, conquistada ao longo de décadas, em relação a Cuba e seu futuro", acrescenta o especialista.

Histórico de cooperação bilateral

Desde a vitória da Revolução Cubana em 1º de janeiro de 1959, as relações entre Cuba e EUA se deterioraram rapidamente. Naquela época, os Estados Unidos adotaram uma política anticomunista ativa na região e exerceram influência para que governos da América Latina rompessem laços com Cuba.

Mas o México, vizinho geográfico estratégico, não apenas reconheceu o governo revolucionário de Cuba, como foi o único país a não romper relações com a ilha na época, mesmo diante de pressões explícitas registradas em assembleias da Organização dos Estados Americanos nos primeiros anos da década de 1960.

Prado Lallande explica que o México justificou a decisão com base em seus princípios pacifistas de política externa, mas também se posicionou como país mediador entre Cuba e os EUA, obtendo um acordo trilateral não divulgado publicamente.

Acordo histórico e suas implicações

"Por um lado, os EUA 'permitem' ao México manter uma política soberana em relação a Cuba, de apoio político, diplomático, de cooperação e assim por diante. Por outro lado, o mais interessante é que, após a Revolução Cubana, México e Cuba concordaram que Cuba não promoveria revoluções no México, como fez em outros países, em troca de que o México apoiasse o governo de Fidel Castro em cenários internacionais", detalha o analista.

Os Estados Unidos, por sua vez, zelaram para que não houvesse influência comunista em sua fronteira direta com o México, ao mesmo tempo em que combatiam os grupos guerrilheiros de esquerda surgidos na América Central e na América do Sul.

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Evolução das relações ao longo das décadas

Os presidentes do México na segunda metade do século 20 mantiveram boas relações com Fidel Castro e consolidaram acordos de intercâmbio sob o marco do pacto firmado na década de 1960. O colapso da União Soviética representou um duro golpe para Cuba, que perdeu o apoio da potência rival dos EUA, mas ainda assim contou com o apoio do México.

Na década de 1990, o presidente Carlos Salinas de Gortari preservou a cooperação econômica quando a ilha enfrentava escassez de alimentos no chamado "período especial". Castro compareceu pessoalmente à posse de Salinas, gesto que contribuiu para legitimar o governo do mexicano.

Com a saída do PRI da Presidência do México em 2000, as relações entre México e Cuba esfriaram significativamente sob os governos de Vicente Fox e Felipe Calderón, ambos do direitista Partido Ação Nacional.

Retomada e novos desafios

O retorno do PRI à Presidência com Enrique Peña Nieto representou um novo entendimento, a ponto de o México perdoar uma dívida superior a US$ 350 milhões referente a envios de petróleo a Cuba. "O objetivo do México era não perder o que havia sido conquistado", afirma Prado Lallande.

A chegada do primeiro governo de esquerda ao México em 2018, com Andrés Manuel López Obrador, representou um novo impulso à relação com Cuba. Durante seu mandato, López Obrador reativou os envios de petróleo a Cuba e firmou acordos que incluíram desde a chegada de médicos cubanos até a compra de vacinas durante a pandemia.

Cenário atual e perspectivas futuras

A partir da ameaça tarifária de Trump, no entanto, o México passou a enfrentar um cenário sem precedentes, no qual se viu obrigado a deixar de cooperar livremente com Cuba. Sheinbaum criticou a decisão dos EUA, que definiu como "muito injusta" por afetar diretamente a população cubana.

"Pode-se estar de acordo ou não com o regime do governo de Cuba, mas a população nunca deve ser afetada. Portanto, vamos continuar apoiando e seguimos realizando todas as ações diplomáticas necessárias para recuperar o envio de petróleo", afirmou a presidente mexicana.

O México já enviou dois navios carregados com alimentos e itens de higiene pessoal para a ilha, mas não enviou mais petróleo enquanto mantém conversas com o governo dos EUA sobre o tipo de sanções que poderão ser impostas caso isso ocorra. "Por enquanto, não vamos enviar combustível", afirmou Sheinbaum.

Prado Lallande ressalta que "o fluxo de cooperação para Cuba nunca havia sido interrompido por forças externas. É uma mudança muito importante, estrutural, que o México tenha sido obrigado a parar". O especialista avalia que, embora o México já não mantenha um intercâmbio direto com uma Cuba que não pode oferecer algo em troca, a lógica de preservar o apoio à ilha continua sendo central.

"É preciso pagar um custo, e esse custo é manter essa ajuda humanitária para que o México retenha sua capacidade de negociação, conquistada ao longo de décadas, em relação a Cuba e seu futuro", conclui o analista, destacando que "independentemente do partido político que governe o México, Cuba é um objetivo de Estado pelo peso político da ilha, sua proximidade geográfica e sua relevância nas relações internacionais".