Após cessar-fogo, mundo aguarda normalização no Golfo Pérsico e efeitos econômicos
Mundo aguarda normalização no Golfo Pérsico após cessar-fogo

Alívio mundial com cessar-fogo, mas normalização levará meses

O mundo respirou com alívio após o presidente Donald Trump aceitar a trégua de duas semanas proposta pelo Irã, mediada pelo Paquistão, no conflito envolvendo Israel, Estados Unidos e o país dos aiatolás. A civilização persa não foi aniquilada, e o Brasil está se saindo relativamente bem em toda esta situação geopolítica complexa. No entanto, os jornais internacionais se dividem entre apostar no alívio momentâneo ou na volta ao caos previsto antes do cessar-fogo.

Reabertura do Estreito de Ormuz é primeiro passo

O New York Times, principal jornal americano, destaca que "levará meses para que o petróleo e o gás comecem a fluir do Golfo Pérsico" de forma plena. Uma das exigências centrais dos Estados Unidos ao Irã era justamente a reabertura imediata do tráfego de navios petroleiros, gaseiros e de fertilizantes pelo estratégico Estreito de Ormuz. Um número limitado de embarcações, retidas há quatro semanas, já começou a transitar, conforme informa o Wall Street Journal.

Fator Israel e complicações regionais

Mas há um porém significativo: Israel, parceiro dos Estados Unidos na empreitada para derrubar o regime dos aiatolás – que fracassou apesar da morte de Khamelei e outras lideranças iranianas – "só foi informado tardiamente sobre o acordo de cessar-fogo, e não ficou nada satisfeito", segundo o Journal. Para piorar o cenário, o Irã alerta que sua participação nas negociações de sexta-feira em Islamabad depende de um cessar-fogo no Líbano, e que poderá reverter seu compromisso de reabrir o Estreito de Ormuz caso essa condição não seja atendida.

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Controle do Estreito e pagamentos em criptomoedas

Enquanto os negociadores não se sentam à mesa no Paquistão para decidir quem fica com o controle do Estreito de Ormuz – território iraniano –, o país exige o "pagamento de taxas em criptomoedas para navios que passam pelo Mar de Ormuz durante o cessar-fogo", conforme revela o britânico Financial Times. O uso de criptomoedas tem como objetivo evitar confisco pelos Estados Unidos, como ocorreu com os fundos russos em bancos após a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022.

Danos extensos à infraestrutura energética

A reabertura do Estreito de Ormuz seria apenas o primeiro passo para aumentar o fluxo de energia pelo Golfo Pérsico, assinala o New York Times. Dezenas de refinarias, instalações de armazenamento e campos de petróleo e gás em pelo menos nove países – do Irã aos Emirados Árabes Unidos, passando pelo Catar, Kuwait e Arábia Saudita – foram alvos de ataques durante o conflito. Repórteres do Times avaliam que 10% ou mais do fornecimento mundial de petróleo foi interrompido.

Reiniciar essas operações exigirá não apenas a passagem segura pelo Estreito, mas também inspeções minuciosas de bombas, substituição de equipamentos de processamento específicos e o retorno de funcionários e navios que se dispersaram pelo mundo. Alguns poços podem ser reativados em dias ou semanas, mas trazer o sistema energético do Golfo de volta a algo próximo da normalidade levará meses, segundo especialistas.

Impactos específicos na Arábia Saudita e Catar

O Financial Times informa ainda que "o oleoduto Leste-Oeste, crucial da Arábia Saudita, foi atingido em meio à continuidade dos ataques ao setor energético do Oriente Médio". O país, maior produtor-exportador de petróleo da região, já não tem 100% da capacidade que possuía antes da guerra, embora ainda possa escoar pelo Mar Vermelho tanto à Europa, via Canal de Suez e Mediterrâneo, quanto aos países asiáticos.

Da mesma forma, o Catar, maior produtor-exportador de gás natural do mundo, teve várias estruturas de resfriamento de gás em Ras Laffan atingidas, comprometendo sua capacidade de exportação.

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Efeitos colaterais econômicos e análise do JP Morgan

Numa análise postada na terça-feira (7), antes do cessar-fogo, o JP Morgan – maior banco dos Estados Unidos – expressou a perplexidade de Wall Street com a guerra através de um relatório pessimista intitulado "Comida, voos e muito mais: os efeitos colaterais do conflito com o Irã". O banco alertou que "o conflito gerou impactos significativos muito além dos mercados de energia, criando dificuldades para setores que vão da agricultura à aviação".

Entre as previsões preocupantes, o JP Morgan destacou que "os preços das passagens aéreas vão começar a disparar" e que "o fechamento do Estreito de Ormuz interrompeu as cadeias de abastecimento de fertilizantes, o que, por sua vez, pode alimentar a inflação global de alimentos". O banco também assinalou que "o transporte marítimo foi afetado, e os importadores podem repassar os custos de frete mais altos para os consumidores".

Cessar-fogo evita o caos? Pergunta permanece em aberto

Enquanto as armas silenciam temporariamente no Oriente Médio, o fogo cruzado segue firme na campanha eleitoral brasileira. Na janela partidária de troca de partidos, o MDB teve sua principal baixa: Marcelo Barbieri, ex-presidente nacional do partido, deixou a legenda após 50 anos de militância e filiou-se ao PDT paulista. Barbieri, ex-prefeito de Araraquara (SP) que lutou pela redemocratização do Brasil, avisou à direção do MDB que não iria subir ao palanque de Bolsonaro e Tarcísio de Freitas.

A grande questão que permanece é se o cessar-fogo conseguirá evitar o caos econômico e geopolítico que se anunciava, ou se estamos diante apenas de uma pausa temporária em um conflito de proporções globais.