O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem intensificado um discurso que causa alarme no extremo norte do planeta: o interesse em colocar a Groenlândia sob controle americano. O que antes parecia uma bravata isolada ganhou um peso preocupante após a recente operação militar dos EUA na Venezuela, que resultou na captura do ditador Nicolás Maduro. Agora, os cerca de 57 mil habitantes do território ártico, que pertence à Dinamarca, expressam publicamente seu descontentamento e temor.
"Ele é louco": a voz da população groenlandesa
Em entrevista à emissora britânica BBC, uma idosa groenlandesa resumiu o sentimento de muitos ao ouvir as declarações de Trump. "Ele está novamente dizendo 'nós vamos tomar vocês', 'nós vamos comprar vocês', 'nós vamos usar as forças armadas'", relatou ela, antes de concluir, de forma espontânea: "Ele é louco!".
O cansaço e a sensação de desrespeito são unânimes. Uma moradora da capital, Nuuk, destacou o desejo por uma vida tranquila, marcada por um histórico de traumas coloniais. "Sempre vivemos uma vida tranquila e pacífica. Claro, tivemos a colonização da Dinamarca... mas acho que só queremos ser deixados em paz", afirmou. "Estamos muito cansados disso", completou.
Interesse estratégico ou ambição territorial?
As declarações de Trump ressurgem em um contexto geopolítico sensível: a disputa global pelo Ártico. A região é cobiçada por sua riqueza em recursos como terras raras, gás e petróleo, além de abrigar rotas marítimas que se tornam mais acessíveis com o derretimento do gelo. A justificativa oficial da Casa Branca, no entanto, é a segurança nacional.
A bordo do Air Force One no domingo, 4 de janeiro de 2026, Trump foi direto: "Precisamos da Groenlândia para garantir a segurança nacional, e a Dinamarca não tem capacidade de protegê-la". No dia 6, sua secretária de imprensa, Karoline Leavitt, reforçou que o território é uma prioridade e que o uso das forças armadas é "sempre uma opção", embora tenha recuado no dia seguinte, afirmando que a diplomacia é a primeira escolha.
Para a ex-parlamentar groenlandesa Tillie Martinussen, a retórica de Trump é ultrajante. Em entrevista à CBC News, ela comparou a sugestão de uma invasão a tratar os habitantes como "trabalhadores do sexo". "Isso é ultrajante, insano e assustador para alguns", disse Martinussen, que rejeita a tese da defesa nacional, lembrando que os EUA já operam uma base espacial no território desde 1951, por meio de um acordo com a Dinamarca. "Acho que (Trump) deveria simplesmente dizer que quer o petróleo, que quer os minerais de terras raras", criticou.
Repercussão internacional e futuro incerto
A prefeita de Nuuk, Avaaraq Olsen, foi enfática ao repudiar qualquer plano americano. "Esse ainda é o estado dos groenlandeses. Achamos muito desrespeitoso e ofensivo sermos envolvidos novamente nisso... Somos tratados como um item para comprar, e realmente queremos nos afastar disso", declarou à CBC.
As ameaças não passaram despercebidas no cenário internacional. As declarações de Trump chocaram Copenhague e aliados europeus de longa data dos EUA. Analistas alertam que qualquer ação militar americana contra a Groenlândia, território de um membro da Otan, significaria o fim da aliança militar.
Enquanto Washington avalia seus próximos passos entre a diplomacia e a força, os groenlandeses, calejados pela história, mantêm-se firmes em seu desejo: serem donos de seu próprio destino e, acima de tudo, serem deixados em paz. A crise evidencia não apenas uma disputa por recursos, mas um profundo choque entre a lógica expansionista e a autodeterminação dos povos.