Em um contexto de tensão extrema na Venezuela, a líder oposicionista María Corina Machado concedeu uma entrevista reveladora, na qual discute os caminhos para a redemocratização do país, a repressão do regime chavista e o papel de atores internacionais como o Brasil. A conversa, realizada originalmente em março de 2024, ganha novos contornos após os recentes ataques dos Estados Unidos que levaram à captura do presidente Nicolás Maduro, em 3 de janeiro de 2026.
A posição do Brasil e o papel de Lula
Questionada sobre a reaproximação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o regime de Maduro, Machado apresentou uma visão cautelosa. A interlocução de Lula com Maduro poderia até servir de alavanca para o processo democrático, afirmou. No entanto, ela foi enfática ao destacar uma condição: para que isso aconteça, o líder brasileiro precisa adotar uma postura firme em defesa das liberdades individuais e parar de validar um autocrata.
Machado rejeitou com veemência a declaração de Lula de que as afrontas às instituições democráticas na Venezuela seriam uma mera narrativa. Para a oposicionista, a realidade venezuelana é de destruição econômica, institucional e social, com salários que não ultrapassam um dólar por mês e um êxodo de mais de 7 milhões de pessoas.
Perseguição, eleições e a sombra da força
A entrevista detalha a escalada da repressão contra a oposição, numa estratégia batizada de Fúria Bolivariana. Machado revelou que quatro membros de sua equipe foram sequestrados pelo serviço secreto em um intervalo de dois meses, sem que se saiba seu paradeiro. Ela própria vive escondida no país, sofrendo ameaças e bloqueios em estradas durante suas viagens.
Sobre sua inelegibilidade, decretada pelas instituições chavistas, a líder foi clara: a decisão está nas mãos de Maduro. A proibição de sua candidatura, segundo ela, tornaria explícito o caráter não livre das eleções, podendo levar a uma repressão maciça. Machado também se defendeu de interpretações passadas sobre o uso da força, esclarecendo que se referia ao poder de mobilização popular, e não a uma intervenção militar.
Panorama internacional e futuro incerto
A oposicionista avaliou as ações de potências estrangeiras. Sobre a suspensão de sanções petrolíferas pelos EUA em troca de eleições livres, ela reconheceu que, em tese, a medida poderia ser decisiva, mas o aprofundamento da repressão demonstra que o efeito desejado não foi alcançado.
Independentemente de quem ocupe a Casa Branca, Machado acredita que os Estados Unidos trabalharão para se livrar da ditadura de Maduro, visto que a Venezuela se tornou um problema de segurança nacional, envolvendo narcotráfico e a influência de Rússia e Irã na região.
Ela também comentou a crise com a Guiana pelo território de Essequibo, acusando Maduro de usar a questão para tentar unir o país ideologicamente em um momento de fraqueza, uma manobra que, segundo ela, não obteve o apoio interno esperado e foi criticada internacionalmente.
Mesmo diante do medo e tendo enviado seus três filhos para o exterior por segurança, María Corina Machado afirma que não deixará a Venezuela. Num momento como este, não posso deixar para trás a luta pela democracia, finalizou, resumindo o tom de resistência que marca sua trajetória política.