O presidente Luiz Inácio Lula da Silva manteve uma série de contatos diplomáticos nesta quinta-feira (8) para discutir a grave situação na Venezuela, após a ação militar dos Estados Unidos que removeu Nicolás Maduro do poder no último final de semana. As conversas, que incluíram líderes do México, Colômbia e Canadá, revelaram uma posição comum de rejeição à intervenção estrangeira e uma defesa firme de uma solução negociada e pacífica para o país vizinho.
Diálogo com México: rejeição a zonas de influência
Em uma entrevista coletiva realizada na manhã desta sexta-feira (9) em Acapulco, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, confirmou ter sido convidada por Lula para visitar o Brasil. O convite surgiu no contexto de uma ligação entre os dois mandatários, ocorrida na quinta-feira (8), focada na crise venezuelana.
Segundo comunicado do Palácio do Planalto, Lula e Sheinbaum discutiram a possibilidade de cooperação para a construção da paz na Venezuela. Os dois líderes rejeitaram explicitamente qualquer visão que implique na divisão do mundo em "zonas de influência", uma clara referência à atuação dos Estados Unidos na região. O Planalto destacou que ambos reiteraram a defesa do multilateralismo, do direito internacional e do livre-comércio.
Brasil e Colômbia em sintonia contra precedente perigoso
A conversa com o presidente colombiano, Gustavo Petro, foi marcada por uma condenação unânime à legitimidade da ação do governo de Donald Trump contra Maduro. Em nota, o governo brasileiro informou que Lula e Petro concordaram que a situação venezuelana deve ser resolvida exclusivamente por meios pacíficos, com negociação e respeito à vontade do povo local.
Os presidentes avaliaram que a intervenção norte-americana constitui "um precedente extremamente perigoso para a paz e a segurança regionais e para a ordem internacional". A nota oficial expressou grande preocupação com o uso da força contra um país sul-americano, em violação ao direito internacional, à Carta da ONU e à soberania da Venezuela.
O Planalto também registrou que os dois países, que compartilham extensas fronteiras com a Venezuela, reafirmaram a intenção de cooperar pela paz e estabilidade, lembrando dos importantes contingentes de migrantes venezuelanos que acolheram nos últimos anos. Na ocasião, Lula informou a Petro que o Brasil está em processo de enviar 40 toneladas de insumos e medicamentos para a Venezuela, de um total de 300 toneladas já arrecadadas, para reabastecer estoques de produtos para diálise afetados por bombardeios em 3 de janeiro.
Posição do Canadá e tensão entre Colômbia e EUA
O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, também foi um dos interlocutores de Lula. Em comunicado, seu gabinete informou que os líderes reafirmaram o apoio a um processo de transição pacífico na Venezuela, que deve ocorrer de forma negociada e sob liderança dos próprios venezuelanos. O governo canadense destacou que ambos enfatizaram a necessidade de todas as partes respeitarem o direito internacional e o princípio da soberania.
O cenário de tensão na região ficou ainda mais evidente com o relato de um telefonema entre o presidente colombiano, Gustavo Petro, e o presidente dos EUA, Donald Trump. Segundo Trump, eles conversaram sobre a "situação das drogas" e sobre "as divergências que tiveram". A ligação ocorreu após uma troca de farpas pública, na qual Trump sugeriu que uma ação na Colômbia "soava bem", e Petro retaliou chamando o norte-americano de senil.
Os presidentes saudaram ainda o anúncio feito na quinta-feira (8) pelo presidente da Assembleia Nacional da Venezuela sobre a liberação de presos nacionais e estrangeiros, vendo-o como um gesto positivo em meio à crise.